Num tempo não muito distante, a Ciência era considerada apenas um subproduto da Filosofia e era totalmente manipulada pela Religião. Os primeiros cientistas eram essencialmente filósofos, assim como os manipuladores dessa emergente modalidade eram essencialmente religiosos.
Hoje, já não é mais assim. A Ciência foi elevada ao patamar de estrela maior dentre as várias constelações que formam tudo aquilo que chamamos de Conhecimento. Ninguém mais estranha as intervenções científicas em todos os segmentos universais de criação, concepção, transformação e destruição.
Embora a Ciência não seja criativa, mas somente inventiva, parece que, a grosso modo, isso não faz nenhuma diferença. Deveria fazer, porque criar e inventar não são a mesma coisa, mas não faz. Especialmente quando, em determinados contextos, as coisas vão dando mais certo do que errado.
Mas existe também um campo adjacente, chamado de Filosofia da Ciência, que é quando se tenta vasculhar e questionar os conceitos científicos e seus métodos, buscando desvendar sua essência e sua ética, bem como os desdobramentos de suas aplicações. Neste momento, talvez se possa argumentar dizendo que a Filosofia da Ciência é a Filosofia Natural, ou seja, aquela que a própria natureza expõe e que os cientistas apenas revelam através de suas elucubrações e invenções. Em resumo, é isso mesmo. Mas e quando entra o lado humano do ser humano nas escolhas éticas que fazem parte de todas as escolhas, incluindo as de aplicação científica?
Um campo marcante, talvez o mais marcante e revolucionário das últimas décadas e, certamente, das próximas, é o da Genética: o DNA como código da vida, como as inigualáveis digitais existenciais de um ser único. O mapeamento genético de uma pessoa pode mostrar "quem" ela é biologicamente, o que pode fisicamente suportar e quanto tempo pode durar, por exemplo. Ao mesmo tempo que desvendar e interpretar esse código expõe as suas melhores potencialidades, expõe também as sua maiores fragilidades.
E é aí que entra a questão que demanda tanta reflexão:
Como determinar o alcance benéfico de uma potencialidade positiva a princípio? E quando decidir que uma fragilidade será, inevitavelmente, negativa a posteriore?
Quem é que vai deter o poder dessa decisão?
Quem vai saber quem é, efetivamente, o melhor para fazer isso e para não fazer aquilo?
Quem vai garantir que a superação não possa ser um caminho melhor que o da mutação?
Como em Gattaca - Experiência Genética, filme de 1997, do diretor Andrew Niccol, quem vai assegurar que a discriminação já não esteja se transformando em ciência?
Veja aí embaixo um trechinho (que não vai comprometer o final para quem ainda não assistiu) desse ótimo filme, com essa história intrigante e fascinante, ou acesse o site:
Neste exato momento, muitos de nós desejaria não ter tido que saber sobre algum fato, seja lá o que for.
Várias vezes, já me peguei pensando que tem coisas que é "melhor" a gente não saber. É que viver no território da ignorância não é nada mal. Pelo menos, até a gente descobrir que é ignorante. Aí, as coisas mudam de figura. Ou não.
Veja que eu não estou me referindo somente ao aspecto educacional ou intelectual da ignorância, mas a tudo aquilo que, por mais comum e corriqueiro que possa parecer, nós ainda não sabemos. De fato, estou falando das pequenas ignorâncias do nosso dia-a-dia, daquelas ignoranciazinhas que, aparentemente, parecem não trazer nenhum problema ou consequência. Porque as grandes ignorâncias, aquelas que gritam na nossa cara, as supremas ignorâncias históricas, essas, a gente vai, mais cedo ou mais tarde, ter que reconhecer. Elas fazem parte de um grande e engenhoso processo de aprendizado e mudança. Mas a miudinhas, essas podem persistir absurdamente, durante anos, sem que a gente sequer se dê conta disso.
Pode parecer que estou brincando ao citar este exemplo, mas é sério, e me serviu como exemplo, bem-humorado espero, durante uma aula ainda ontem, falando a um grupo de alunos. É sobre uma cena do sitcom The Big Bang Theory, onde o personagem Sheldon (magnificamente interpretado por Jim Parsons) está "tentando" jantar num restaurante chinês com dois dos seus três inseparáveis amigos.
Por ser um gênio obsessivo-compulsivo, ao fazer o pedido dos quatro biscoitos da sorte de sempre, Sheldon diz que eles estão apenas em três e que isso vai ser um problema, pois não é assim que devia ser. O quarto amigo faz muita falta, porque vai sobrar um biscoitinho! Os outros dois sugerem outras opções do cardápio, mas, é lógico, nada dá certo. Até que o dono do restaurante, um "chinês" nascido em Sacramento, na Califórnia, que não aceita substituições e nem reduções nas quantidades (a porção de quatro biscoitos é de quatro biscoitos e ponto final), sugere que pode deixar cair um dos biscoitinhos sem querer, como se fosse um acidente, para que eles possam ficar apenas com três. Os outros dois, mortos de fome e querendo acabar logo com aquilo, acham a idéia ótima, mas Sheldon diz que não vai dar, que é tarde demais pra fazer isso. Todos perguntam por quê e ele responde:
- Porque agora eu sei!
Esses pequenos jeitinhos que arranjamos para fazermos de conta que não sabemos aquilo que sabemos é comum na vida de todos nós, porque parecem inofensivos e até inocentes. São quase uma polida maneira dissimulada de ser e de viver.
Fazer vistas grossas é um ditado antigo, mas que me parece bem apropriado para definir situações em que a gente sabe, mas faz de conta que não sabe. A gente tem consciência da "coisa", mas finje que é ignorante. Afinal, muitas vezes, é mais confortável se viver na ignorância.
Boas reflexões!
Ah, e se divirtam um pouquinho com o Sheldon e sua turma no vídeo aí embaixo:
Não tenho palavras para agradecer e nem para descrever esse sentimento. É, sem dúvida, indescritível.
Como, provavelmente, diría Sivananda nessa hora:
Como explicar a cor vermelha para quem nunca enxergou? Ou como descrever o sabor de uma maçã para um esquimó, por exemplo?
Eu, de minha parte, nem me atrevo a tentar. E, se você, além de me conceder o privilégio de acompanhar este blog, também é praticante de Yoga, vai sentir este momento como puro santosha.
Fiquem apenas com as intimistas, aconchegantes, inteligentes e felizes imagens desse inesquecível encontro - que, nas inspiradas palavras do Aldo Novak, é irrepetível.
Muita paz e muuuuuuito obrigada a todos, indistintamente, quer tenham ou não estado lá com a gente.
Rosana
P.S.: Lembrando que este é o nosso espaço de aulas no Jardim América, aqui em Sampa. Para todas as informações, por favor, acesse o blogagenda: http://rosanabiondillo.blogspot.com .