YOGUICES : MEU CAMPO LIVRE-ABERTO :: Yoga :: Vida :: Atitude :: Arte :: Etc :: por Rosana Biondillo : ter livre-arbítrio & ser livre-aberto


De galho em galho


O nosso cérebro, assim como um computador, assume tudo como sendo realidade. Imagine que,  numa manhã ensolarada,  você esteja em seu quarto, no escuro. Imagine ainda que você adormeça e sonhe. O escuro do quarto transformará a manhã em noite e os seus sonhos passarão a ser sua realidade imediata. Afinal de contas, você não se lembra que está dormindo e sonhando. Ao despertar, você percebe que esteve dormindo e que os sonhos não são, de fato, a realidade que pareciam ser há apenas alguns instantes. Ao abrir a janela, você também percebe a luz da manhã.

De maneira semelhante, é isso o que acontece com nossos pensamentos, pois pensar sobre um fato, um acontecimento, uma pessoa, uma situação, ou uma história qualquer,  traduz-se em realidade imediata para o cérebro. Ele não “sabe” que esses pensamentos não são a realidade que ele percebe ser.

Pensamos sem parar: da hora em que acordamos até o momento de novamente adormecermos e,  mesmo durante o sono, com sonhos ou sem nos lembrarmos deles, estamos pensando, incessantemente pensando... Nas coisas mais banais, até absurdas, que, parte das vezes, não têm nada a ver com o momento presente. Mas lá estamos nós, pensando, pensando, pensando... Pelo menos, "pensamos" que assim seja. Parece mais eficiente dizer que os pensamentos nos pensam, pois é essa a sensação que fica nos raros momentos em que tomamos consciência do que na verdade está acontecendo.

Vários mestres de Yoga associaram os pensamentos a um macaco pulando de galho em galho,  atrás de suas preciosas bananas. Perfeita metáfora, pois assim somos nós: pensamos incessantemente e, ainda por cima,  acreditamos que esses pensamentos sejam a nossa única e absoluta realidade!

E é exatamente nesse ponto que tudo começa a se emaranhar.

Que os pensamentos existem e são reais ( ao menos para quem os pensa), não há porque polemizar, mas tomá-los como realidade única e absoluta é muito mais complicado. É como cair numa armadilha e ter que sair dela várias vezes no decorrer de um mesmo dia. A armadilha é sempre a mesma e, ainda assim, continuamos a cair nela. Como, então, sair desse círculo mental vicioso em que nos encontramos?

Como definido por Patañjali,  em seu tratado Yoga-Sutra , "Yoga é a parada voluntária dos turbilhões da mente" (do original sânscrito Yogas citta vrtti nirodhah). Essa é, de fato, a meta de todas as escolas de Yoga. As técnicas podem diferir, mas o propósito é o mesmo: atingir o estado de Samadhi (liberação, integração, iluminação, auto-realização, supra-consciência... ) pela parada voluntária dos pensamentos. Foi isso o que fizeram os grandes yogis e sábios da Índia antiga: conseguiram parar esse circuito mental que nos parece ser ininterrupto. E o fizeram agindo e experienciando as variadas técnicas do Yoga. Transformaram o mero pensar em consciência e esta, por sua vez, foi didaticamente "dividida" nos “indivisíveis”  estados de consciência. Ao experienciar cada um desses "novos estados", os foram assimilando, incorporando e, ao mesmo tempo, os foram simbolicamente eliminando, assim como fazemos com as coisas que já nos serviram, mas que já não nos servem mais.

A consciência nos torna capazes de sentir e de distingüir entre a realidade e a fantasia, entre o real e o irreal, entre o verdadeiro e o falso, e a entender e a perceber as dualidades, ou os conflitos, de nossa existência. Pois a consciência não é produto exclusivamente do cérebro, como é comum de se pensar. Ela é integral, total e habita cada minúscula célula do nosso corpo. E é somente quando a consciência penetra em todas as nossas trilhões de células,  que conseguimos efetivamente mudar e nos transformar naquilo que, de algum modo, sempre fomos.

Colocar os pensamentos no seu devido lugar pode ser uma excelente maneira de começarmos a prestar mais atenção ao que nos acontece e ao que fazemos acontecer. Não atribuir importância ao que de fato não tem  e nem deixar passar despercebidos momentos preciosos são indícios de que estamos nos tornando cada vez mais conscientes de nossa essência, bem como de nossas ações.



Escrito por rosana biondillo às 10h51
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A música do coração

"Quando silenciamos o cérebro, aquietamos o corpo e permanecemos suficientemente serenos para sentir o coração pulsar, podemos nos tornar capazes de evocar mais intensamente a emoção de estarmos vivos." Paul Pearsall

A cardiocontemplação, uma espécie de meditação que dá enfase ao coração, propõe tornar o cérebro menos vigilante e a ligar-se à energia sutil emanada por cada batida do coração. Segundo seu idealizador, o médico psiconeuroimunologista Paul Pearsall, este tem tudo para ser um processo que propicie, por assim dizer, um possível contato com nossa alma através de sua energia espiritual. Segundo ele:

"É um processo combinatório, coletivo e conectivo que nos permite sintonizar a memória da sensação que constitui o fato de termos paixão por estarmos vivos. Assim como os pacientes cardiossensíveis de transplante de coração são fisiologicamente forçados a reconhecer sua conexão com a energia que compartilham com outra pessoa, qualquer um de nós poderia ser capaz de dar plena liberdade ao nosso 'observador oculto', aquela parte de nós que permanece atenta e sensível à emoção de viver, mesmo quando o cérebro está atarefado e aturdido no esforço de nos ajudar a ganhar a vida."

O resultado alcançado pela cardiocontemplação recebeu o nome de coerência cardíaca ou cardiocoerência. Algumas pesquisas nessa área mostraram que a energia celular, a energia do coração e até o nosso DNA, são de natureza musical e rítmica. Ainda segundo Pearsall:

"A cardiologia da energia pode ser vista como uma espécie de musicologia de nossa canção espiritual da vida, o estudo de como o coração não apenas coordena nossa sinfonia celular individual, mas toca em duetos e executa grandes arranjos sinfônicos com todos os corações, pessoas, lugares e coisas."

Essa visão integral e completa da sinfonia perfeita da vida me leva a imaginar que Krishna, o Grande Senhor do Yoga, talvez tenha se expressado através de uma canção divina, a Bhagavad Gita , exatamente para estabelecer contato com cada um dos minicorações que formam a sublime sinfonia universal da criação.

Os sons Anahata e OM , o som primordial que nasce no coração, vibram ininterruptamente apontando nessa mesma direção. Afinal de contas, enquanto Krishna se expressa pelas vibrações musicais divinas, Shiva dança a eterna dança da criação, da destruição e da renovação do Universo.

Segundo os cientistas Gary Schwartz e Linda Russek, co-fundadores da cardioenergética:

"(...) estamos permanentemente empenhados numa dança energético-informativa reverberante. Nossa energia é recolhida por outro sistema de energia, nossa energia altera o padrão e a ressonância da energia nesse sistema, que, por sua vez, emite sua forma de energia que acabou de ser modificada e está agora armazenada como parte de nossa energia; e assim acontece sucessiva e interminavelmente em cada batida de nosso coração."  



Escrito por rosana biondillo às 07h29
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