Li a notícia hoje de manhãzinha, numa revista com Che Guevara na capa, na loja de conveniências do posto de gasolina do qual sou cliente desde sempre, aguardando o Robson terminar a troca de óleo do meu carro.
É sobre o professor norte-americano de ciência da computação, Randy Pausch, 47, que está com um cancêr terminal. Mas, segundo seu próprio relato, ele está bem e feliz, curtindo os seis meses de vida saudável que, segundo os médicos que o assistem, lhe restam.
Ele escreveu em seu blog:
"O mais curioso de tudo é que não estou deprimido. Tampouco estou negando a doença - posso garantir que tenho plena consciência do que vai acontecer."
Randy é casado e pai de três filhos pequenos.
Quando o Robson chegou com as chaves do carro e disse:
- "É melhor a senhora ir direto para o mecânico, pois a coifa do lado direito está vazando, e pode danificar o motor."
Fui feliz, sem reclamar, cuidar de fazer o que tinha que ser feito.
O Robson não entendeu minha felicidade.
Nota: Vídeo com parte da, assim considerada, "última" palestra de Pausch, em 18/09/2007, intitulada "Como viver os seus sonhos de infância".
Noventa por cento dos praticantes de Yoga do planeta conhecem, pelo menos, uma versão do Suryanamaskar, ou Saudação ao Sol.
Mas aposto que ninguém ainda conhece a Saudação ao Sol dos Dedinhos.
Durante uma aula, onde o foco era o Suryanamaskar, notei uns movimentos diferentes, que uma aluna realizava com as mãos, toda vez que elevava os braços. No começo, não dei tanta atenção, pois havia várias pessoas na sala, e ela estava fazendo tudo direitinho.
Até que, por coincidência (ou não), todos terminaram suas seqüências, e ela estava finalizando a sua, elevando os braços e mexendo os dedos das mãos.
A cena era singela e ludicamente engraçada, alguma coisa entre a Dança do Passarinho, do Gugu, e a Dança dos Dedinhos, da Eliana, com um leve toque indígena, de Dança da Chuva.
Não me contive. Segurei o riso e perguntei:
- Posso saber por quê você está movimentando os dedos desse jeito!?
Resposta imediata:
- Para melhorar a circulação das mãos.
Fisiologicamente, fazia muito sentido, mas, psicologicamente, não deu para segurar a gargalhada.
Eu ria e me desculpava ao mesmo tempo, o que transformou a cena numa seqüência de Hasya Yoga, o tal do Yoga do Riso, com direito a mão na barriga e tudo.
Achei tão deselegante minha atitude, mas o pessoal gentilmente entendeu a espontaneidade da coisa, com muito bom-humor. Especialmente, a aluna em questão. Ela até achou que seria uma forma de homenagem, a um momento tão especial, inusitado e inédito, se eu escrevesse esta postagem.
Afinal de contas, ela criou a exclusiva Saudação ao Sol dos Dedinhos! E, convenhamos, isso não é para qualquer um.
Este é um tema que sempre gera controvérsia e é amplamente associado à prática de Yoga, especialmente por causa da autoridade indiscutível do Bhagavad Gita. Além disso, costuma-se confundir a Teoria do Karma com a Teoria da Reencarnação e também com a Teoria de Transmigração das Almas. De fato, a confusão é tanta, que o significado original da palavra sânscrita karma, que é agir, fazer, parece ter se perdido no tempo.
Em parte, isso se deve ao fato de que uma boa parcela das traduções pioneiras de antigos textos sânscritos tenham sido baseadas em traduções francesas e inglesas já existentes. Repletas de boas intenções, essas traduções deveriam ser consideradas mais como "adaptações".
Um outro fator, é tentar entender o fascinante e misterioso mundo oriental, e em especial o profuso mundo do Sudeste Asiático, sob a mesma ótica do nosso prático e despojado mundo ocidental. Esse procedimento costuma não funcionar e, inúmeras vezes, piora a situação, pois toda ação existe num dado contexto. Via de regra, ao mudar-se o contexto, muda-se também a interpretação da ação.
Observando esse longo processo, não é de se estranhar que, hoje, o termo karma, além das interpretações já citadas, também esteja ligado aos conceitos de culpa e de sofrimento carregados de merecimento.
Todas essas minhas colocações estão ligadas mais a um processo intelectual de análise do que a vivências ou crenças.
Eu, como praticante e professora de Yoga, já revelei algumas vezes, em minhas aulas e workshops, e em trechos de alguns de meus textos, que não tenho opinião formada a respeito desse tema. Misturar karma com reencarnação, com vida após a morte, com religião etc. e tal, chega a me cansar um pouco, com todo o respeito. Ao mesmo tempo, acho tudo isso fascinante.
Eu adoraria poder voltar a re-viver, a re-encontrar as pessoas que tanto amo, tendo a chance de me re-dimir de meus erros e de evoluir como um espírito iluminado, rumo à perfeição. Mas, esses momentos se esvanecem e eu volto a ser apenas uma "cética-ignorante", que não sabe absolutamente nada a esse respeito.
Antigamente, eu tentava me justificar, buscando explicações em Patañjali e em Buda. Hoje, já não me justifico mais. Apenas digo que não sei, não sei... E sinceramente espero que as pessoas, que gentilmente se dispõem a me ouvir e/ou ler, não se sintam [muito] decepcionadas com essa declaração --- especialmente vinda de alguém que ama tanto o Yoga.
Às vezes, me vem a nítida sensação de que não tenho muitas opções para mudar minha própria vida e seus acontecimentos, como se o roteiro já estivesse escrito e pronto, uma coisa de destino; em outras, tenho toda a convicção de que posso modificar tudo, que posso fazer acontecer, que posso escrever minha história, toda essa coisa de livre-arbítrio.
Pensando racionalmente, deveria ser um misto das duas coisas, numa matemática perfeita. E, de novo, bem lá no fundo, eu não sei...
Mas existe uma coisa espetacular em toda essa bagunça: o encantamento.
Apesar de todos os pesares e desprazeres, eu continuo extremamente encantada com a vida, com a possibilidade de estar aqui, agora, respirando, imaginando, criando, amando.
O que me trouxe até aqui e para onde isso tudo vai me levar?
Ativistas, usando máscaras da líder oposicionista de Mianmar (=Birmânia), Aung San Suu Kyi, se acorrentaram durante protesto em frente à embaixada chinesa em Bangoc, capital da Tailândia.
Hoje, 24 de outubro, se completam doze anos da prisão da líder.
Está planejado para hoje um dia mundial de ações para que os presos políticos de Mianmar recebam tratamento contra doenças e não sejam mais torturados.
A tradução mais comum para o segundo niyama santosha é contentamento, mas penso que também pode ser alegria de viver.
Ao falar em contentamento, a proposta original de Patañjali, no seu Yoga Sutra, está intimamente ligada à superação das decisões e dos julgamentos baseados apenas na utilização de nossos cinco sentidos, que podem ser contraditórios e distorcivos.
Segundo Patañjali, o contentamento, ou a alegria de viver, permearia uma existência que não apresente motivos para repetição do passado nem para antecipação do futuro; que seja um estado de viver no presente; que não seja nem imediatista nem oportunista; que não alimente expectativas de resultados rápidos e fortuitos; que não dê a falsa idéia de que a dedicação e a disciplina constantes são itens descartáveis.
Embora saibamos que dedicação e disciplina são primordiais, devemos nos lembrar que também não devem ser apenas obrigatórias, pois podem tornar-se pesarosas e desinteressantes.
Patañjali propõe que a dedicação e a disciplina devam ter uma qualidade de disposição, de doação, de bem-estar; que devam ter um elemento de paixão, de energia, de constante e pura alegria pela vida. Pois santosha brota na alma e expressa o sorriso de um coração feliz.
Quando seu coração sorri, isso é puro contentamento: é a alegria pela alegria, é a satisfação pela satisfação, é a emoção pela emoção, é a paz pela paz, é o ser pelo ser.
Quando você se sentir contente e centrado no momento presente, feliz por ser quem você é, quando seus lábios expressarem um leve e iluminado sorriso, e quando seus olhos brilharem apenas por brilhar, assim como brilham as estrelas, você estará em santosha - um estado onde não se fala com a voz da razão, mas com a do coração; onde não se enxerga com os olhos do corpo, mas com os da alma.
Quando os 35Sonetts (escritos originalmente em língua inglesa), de Fernando Pessoa, foram publicados em 1918, estávamos vivendo o surgimento da Arte Moderna que, aqui no Brasil, culminou com a Semana de Arte Moderna de 1922.
Embora o melhor termo para definir Pessoa não seja exatamente moderno, mas tão somente eterno, ele, aos seus modos e estilos (ele nunca foi apenas um, mas muitos, considerando-se seus geniais heterônimos), talvez tenha sido um dos artistas mais despojados e desapegados, embora mutifacetado e mesmo contraditório, na construção de sua Arte.
Fernando Pessoa foi muitos e ao mesmo tempo foi nenhum! Muitas personalidades e nenhuma em especial. E, ainda assim, todas tão especiais...
Em seu Soneto número I, ele se abre falando da alma, do coração, da razão e dos sonhos.
Não tem como traduzir uma obra-prima em constante fluidez, palavras em movimento como as suas. Num esforço, tentei fazê-lo com as duas últimas frases deste soneto, apenas para tornar esta postagem mais didática. Quem leu "Caldeirão de sonhos", logo mais abaixo, vai entender o por quê.
Onde ele diz:
"Nós somos nossos sonhos de nós mesmos, almas vislumbrantes,
E um ao outro sonha [com] os sonhos dos outros."
Já vou me desculpando pela tentativa. Mas o importante mesmo, é ler o soneto na íntegra várias vezes, de preferência:
1. Em voz alta, como que declamando;
2. Apreendendo cada palavra, cada som e tom, cada nuance;
3. Com sentimento despojado e verdadeiro.
Poesia é uma forma de Meditação.
Ou seria a Meditação pura Poesia?
Sem conclusões, apenas reflexões.
Sonnet I
Whether we write or speak or do but look
We are ever unapparent. What we are
Cannot be transfused into word or book.
Our soul from us is infinitely far.
However much we give our thoughts the will
To be our soul and gesture it abroad,
Our hearts are incommunicable still.
In what we show ourselves we are ignored.
The abyss from soul to soul cannot be bridged
By any skill of thought or trick of seeming.
Unto our very selves we are abridged
When we would utter to our thought our being.
We are our dreams of ourselves, souls by gleams,
And each to each other dreams of others' dreams.
Em tempo:Mude o autor, o idioma, o tamanho do texto etc. Fique à vontade para escolher uma Literatura que tenha muito a ver com você. Só não vale deixar o sentimento de lado (pelo menos, neste "tipo" de Meditação, não costuma funcionar).
Em 1899, Sigmund Freud lançava o célebre A Interpretação dos Sonhos e, com ele, dava, oficialmente, a luz à Psicanálise. Antes disso, Neurologia e Psicanálise se misturavam, formando um confuso território. Não que hoje as coisas estejam muito mais esclarecidas, mas foi especialmente graças a Freud, que descobrimos uma instância psíquica chamada inconsciente.
Antes dos estudos de Freud (e ele mesmo fazia isso como neurologista), a "Psicanálise" tratava predominantemente das experiências conscientes e de seus aspectos orgânicos, numa espécie de Neurologia Psicológica (ou, num termo mais moderno e atual, numa Pré-Neuropsicologia).
As perguntas que perturbavam e motivavam Freud, eram as mesmas que, ainda hoje, nos perturbam e motivam a querer saber sempre mais sobre o mundo dos sonhos:
- De onde surgem os sonhos?
- Quais os seus significados?
- Apontariam para o passado, para o presente ou para o futuro?
- Seriam revelações, premonições, regressões?
Segundo Freud, o sonho é o caminho para o inconsciente, sua "via régia", além de ser sua formação mais acessível. Afinal de contas, todos sonhamos e, conseqüentemente, vivemos experiências únicas e inigualáveis durante nossos sonhos. Desse modo, "sonho" e "inconsciente" são considerados praticamente sinônimos, assim como "Interpretação dos Sonhos" e "Psicanálise". Portanto, de acordo com suas pesquisas e vasta experiência, Freud acreditava que os sonhos surgiam e emanavam do próprio inconsciente do indivíduo, e não, dos deuses, demônios ou entidades outras, como era costume crer-se em sua época.
Freud via os sonhos como metáforas ou símbolos a ser interpretados. Os sonhos quase nunca apresentam uma linearidade lúcida, com começo, meio e fim definidos. E mesmo que, possivelmente, o façam, a mensagem pode ser de outra natureza, nem sempre tão óbvia, tão conhecidamente fácil. Excetuam-se aqui os sonhos declaradamente fisiológicos, como ter sede ou frio e acordar para beber água ou se cobrir. Até mesmo os motivados por desejos conscientes muito intensos, como conseguir comprar aquele carro importado ou ganhar na loteria, podem vir camuflados ou censurados, e precisam ser devidamente analisados . Portanto, os sonhos sempre carecem de interpretação para que a vivência de uma experiência inconsciente possa ser acessada e vir a adquirir significado neste nosso mundo considerado como "real" (em oposição ao onírico, ou dos sonhos).
Para Freud, o sonho é a realização de um desejo. Geralmente, um desejo não "aceitável" ou "censurável" no estado de vigília. Nesse sentido, o inconsciente é como um grande caldeirão de sonhos de desejos secretos, que podem cronologicamente pertencer ao nosso passado, próximo ou distante, ao presente ou a uma manifestação ainda em formação, latente, futura. Portanto, nossos sonhos são revelações que nos remetem ao passado, nos trazem para o presente e nos catapultam para o futuro. Os sonhos são a manifestação do tempo fora do próprio tempo. E isso é genial.
Como é maravilhoso também poder compartilhar aquilo que me levou a escrever esta postagem: a descoberta de que todo sonho é sempre uma revelação, uma premonição e uma regressão;não sobre os outros ou sobre acontecimentos alheios, mas tão somente SOBRE SI MESMO! Também não sobre "adivinhações" do que vai acontecer num futuro próximo, ou do que já aconteceu num adormecido passado remoto, mas SOBRE A VERDADEIRA ESSÊNCIA DE SER APENAS QUEM SE É.
E o que é ainda mais importante: sobre a enorme capacidade que todos temos de nos transformar, bem como, por extensão, os acontecimentos ao nosso redor.