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Aluno-fantasma

Faz uns três meses, iniciei mais um novo grupo no SYS. Como de costume, converso detalhadamente com cada aluno numa entrevista prévia. É um momento fundamental para mim, pois me interesso em saber sobre as pessoas que vão estar comigo, quais suas expectativas, seus anseios, o que fazem da vida. Nesse momento, pergunto pela profissão.
Acho muito importante saber sobre a profissão de alguém, pois pessoas felizes profissionalmente, que amam fazer o que fazem, raramente se queixam da vida e estão sempre presentes, com uma vivacidade que irradia pelos ambientes que freqüentam. Além disso, eu aprendo muito com todos eles, pois cada um tem uma contribuição a dar para o engrandecimento de nossas aulas.
Nas preleções, ou aulas teóricas, quase sempre peço a contribuição de alguém que sei que faz determinada coisa e que sabe do assunto. Nesse aspecto em particular, esse grupo caiu do céu.
Numa dessas recentes preleções, pedi a cooperação de uma fisioterapeuta. E nem preciso dizer que essa foi uma de minhas melhores aulas. Todo mundo participou e amou. Me deu uma satisfação tão grande, uma alegria tão gostosa, uma leveza de espírito... Essas coisas que não dá para explicar direito: só sentindo mesmo.
Até que, esta semana, eu descobri que posso estar ficando (parafraseando o Ziraldo) meio maluquinha. A melhor amiga da fisioterapeuta, que é dentista e pratica no mesmo grupo, me disse que a fisioterapeuta não é fisioterapeuta: é dentista também!
- Tem certeza?!
- Absoluta, Rosana! Nós temos um consultório juntas!
- Então, eu devo ter confundido com a ...
- Não, não. Ela também é dentista!
- É todo mundo dentista aqui ?! E o ... Não, ele é engenheiro. E a ...?
- É advogada, Rosana. Ela é minha irmã, e a outra é psicóloga, e o outro é arquiteto. As alunas novas, a mãe e a filha, não sei o que elas fazem.
- Marketing, elas trabalham com marketing... Então, quer dizer que não tem nenhum fisioterapeuta nesse grupo?!
- Não tem, Rosana!
- ?!?!?!?!?!?!?!?!
"Oh, céus. Oh, vida. Oh, azar. Isso não vai dar certo.", como díria o Hardy, personagem do desenho animado Lippy & Hardy, de 1962! Portanto, só nos restou rir, para eu não chorar.
Certa que estava falando com uma fisioterapeuta, no fundo eu estava é falando com uma dentista ultra-educada, a quem agradeci a extrema gentileza de ter se passado tão bem por fisio. No fim, todo mundo acabou achando a história pateticamente engraçada.
Até que, na aula passada, quando estávamos em chaturanga dandasana, e eu explicava sobre a importância da suavidade que deveria ser aplicada ao movimento de flexão dos cotovelos e os cuidados com os braços, ombros e pescoço, recorri ao tal aluno-fantasma:
- Então, essa era uma boa hora para "aquela fisioterapeuta" completar essa informação. Ô pessoal que nunca aparece quando a gente precisa!!!
Desnecessário dizer o que aconteceu com os chaturanga.
Escrito por rosana biondillo às 13h07
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Eu sou o capitão da minha alma

Voltando aos Piratas do Caribe e à maravilhosa bússola sem Norte do Capitão Jack Sparrow (para entender melhor este post, é interessante ler o anterior).
Existe um ponto essencial, que optei por não abordar na postagem anterior, para não ficar muito longa e para dar tempo para a reflexão:
Você sabe o que realmente mais quer no mundo?
Ou você fica confuso e amedrontado, simplesmente "querendo sem querer" de verdade?
A personagem Tia Dalma (que associo a "Tia da Alma"), uma espécie de feiticeira-deusa com dons pré-monitórios, questiona o capitão:
- Jack Sparrow não sabe o que quer?!, diz ela, mencionando a eficiência da bússola.
- Eu sei muito bem o que quero!, diz Jack, meio titubeante.
E, bem lá no fundo, ele sabia mesmo, pois o coração sempre sabe. Mas a ansiedade e o medo se transformaram em impedimentos, e tiraram sua bússola interior do rumo certo. Seu coração estava em conflito, em crise. Naquele momento, Jack Sparrow não era mais o capitão de sua alma.
Para voltar a sê-lo, Sparrow teve que fazer a coisa certa: teve que aprender a ler sua própria consciência através da sensibilidade de seu coração, de sua bússola sem Norte. Ele até tentou usar somente a razão, fazendo cálculos e exercitando a cartografia, mas não deu.
O capitão teve que aprender que a liberdade não pode ser conquistada a qualquer custo, por quaisquer meios; ele teve que aprender que a verdadeira liberdade não significa apenas fazer o que se quer, mas também o que deve ser feito, mesmo que isso signifique ter que enfrentar seus monstros interiores, que brotam das profundezas de um vasto oceano chamado Alma.
Nesse momento de confronto e de agonia, por mais incongruente e estranho que possa parecer, corajosamente Sparrow pôde voltar a sentir seus próprios sentimentos:
- Eu sou o capitão da minha alma!
É o que imagino que ele diría num momento desses. Ou, pelo menos, é o que eu gostaria de ouví-lo dizendo...
Por isso, quando você estiver em dúvida quanto ao que realmente mais quer no mundo, quando não estiver conseguindo sentir qual a melhor direção apontada por sua bússola interior, quando seus objetivos parecerem estar se distanciando cada vez mais de você, quando até sua prática de Yoga parecer não fazer mais sentido (e isso já aconteceu inúmeras vezes comigo), espero que possa lembrar-se de mais esta leitura da metáfora da magnífica bússola sem Norte do Capitão Jack Sparrow.
Porque só você pode ser o Norte de seus desejos.
E que venham novos horizontes! Yo Ho!
Escrito por rosana biondillo às 12h10
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Bússola sem Norte: para onde apontam seus desejos?

O mês de julho é tradicionalmente um mês de férias escolares. E muito embora eu tenha trabalhado até mais, pude reservar um tempo para fazer vários programas, "bem paulistanos", com a minha filha: fomos ao cinema, ao teatro, a exposições, a museus... Mas de todos esses momentos, devo confessar que dos que mais gostei, foram as intimistas sessões de filmes em casa. E foi numa dessas tardes de filmes em dvd e pipoca, que a mágica aconteceu: eu finalmente descobri a bússola de Jack Sparrow, personagem do Johnny Depp, na trilogia Piratas do Caribe.
Foi encantamento à primeira vista. Fiquei com a tal bússola na cabeça por dias e dias (e devo confessar que até hoje estou e que não tenho data para deixar de estar). Para quem ainda não conhece, a história é muito simples: a bússola do Capitão Jack Sparrow não tem Norte! Ela gira, gira, gira, mas nunca aponta para o Norte geográfico.
- Sua bússola está quebrada: não tem Norte!, é o que todos dizem ao tentar utilizá-la.
- Quem disse que eu quero ir para o Norte? Esta é uma bússola muito especial: ela só aponta na direção dos seus mais profundos desejos, para o que você mais quer no mundo!, diz Jack.
"Ela só aponta na direção dos seus mais profundos desejos..."
Para muitos puristas, pode até parecer ridículo o que vou dizer agora: essa foi a declaração mais consistente e verdadeira que ouvi em muito tempo. E que chegou até mim num filme comercial, para muitos decadente, marqueteiro e toda aquela conversa anti-americanista e intelectualóide que conhecemos tão bem. Mas isso é uma outra história...
A história da bússola sem Norte de Sparrow é uma metáfora para a descoberta de nossos próprios desejos e intenções. Nosso verdadeiro Norte jaz oculto nas profundezas de uma caverna, que os antigos yogis chamavam simplesmente de Coração, ou Anahata. A essência da felicidade habita a caverna do coração, e não, uma caverna qualquer nos Himalaias.
A felicidade não pode ser geograficamente encontrada, pois é um estado interno. A beleza e sabedoria da bússola de Jack Sparrow se revelam quando ela espontaneamente gira motivada pela força do desejo mais profundo, que vem do coração de quem a possui, numa espécie de topografia do sentimento.
Nossos desejos não têm Norte, nem qualquer outra direção pré-determinada. Nossos desejos são apenas nossos e seguem um fluxo natural interno chamado de felicidade. Tentar desviá-los desse fluxo se traduz em sofrimento, arrependimento, dor.
Para que possamos modificar algumas condições limitantes e desgastantes de nossas vidas, temos que aprender a ler as direções apontadas por essa bússola interior. No fundo, é a mesma bússola do Capitão Jack Sparrow.
Como ele majestosamente diz à sua livre e querida bússola sem Norte:
- Agora, traga-me aquele horizonte! Yo ho!
Escrito por rosana biondillo às 08h57
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O maior amor do mundo

Entre os praticantes de Yoga, é raro encontrar alguém que não conheça alguma coisa sobre Ganesha - o popular deus hindu removedor dos obstáculos, que ostenta uma cabeça de elefante.
Ganesha é também personagem de vários contos, que nos revelam sua origem, seus feitos e sua personalidade. Para uma deidade, Ganesha tem um jeito muito especial de se comportar e é detentor de uma sabedoria bastante poética. E nem preciso dizer que as histórias sobre Ganesha me agradam bastante. Mas existe uma em especial, que envolve sua mãe Parvati e seu irmão Kartikeya, ou Subramanya.
Certa vez, Ganesha e Kartikeya estavam discutindo sobre qual dos dois amava mais a mãe, Parvati. A discussão já estava indo longe demais quando Parvati, como toda mãe, incomodada com a disputa dos filhos, resolveu pôr fim ao caso. Para isso, chamou-lhes a atenção e disse que iria lançar um desafio, cujo resultado poria fim definitivamente à briga infantil entre eles. Ganesha e Kartikeya aceitaram o desafio. Parvati explicou-lhes, então, que aquele que primeiro desse uma volta inteira ao redor do mundo, teria por ela o maior amor.
Atlético e vigoroso, Kartikeya, mais do que depressa, pegou seu animal de montaria, um pavão, e lançou-se à aventura, arrogantemente proclamando-se vencedor por antecipação. Já Ganesha, gordinho, com uma pesada cabeça de elefante, mais intelectual, não saiu do lugar. Parvati mostrou-se preocupada por poder estar privilegiando Kartikeya em detrimento de Ganesha, mas como a coisa já estava feita, não teve mais tempo de voltar atrás.
Quando, no final da história, Kartikeya retorna confiante, com a certeza de ter sido o vencedor, encontra Ganesha confortavelmente sentado, saboreando algumas frutas trazidas especialmente para ele por sua mãe. Nesse instante, Parvati declara Ganesha o grande vencedor da prova. Consternado, Kartikeya exige explicações. Ganesha diz então a seu irmão, que enquanto ele estava se esforçando para dar sua volta ao mundo, ele apenas ouviu seu coração e deu uma volta ao redor de sua mãe, que era, de fato, o seu mundo.
Vendo a emoção de Parvati, Kartikeya não teve como não aceitar a supremacia de Ganesha, que com um gesto tão terno e singelo, mostrou que tinha por sua mãe o maior amor do mundo.
Escrito por rosana biondillo às 07h22
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