Alguns alunos me alertaram para o fato de meu nome aparecer no website da Uni-Yôga e que não fica claro se eu dou ou não aulas seguindo esse método.
COMO NÃO FAÇO PARTE DESSA INSTITUIÇÃO E NEM MINISTRO AULAS POR ESSE MÉTODO, QUERO REGISTRAR QUE HOJE MESMO JÁ ENVIEI EMAIL PARA A REFERIDA PEDINDO A RETIRADA DE MEU NOME DE SUAS LISTAGENS.
Eis o conteúdo da mensagem recém-enviada para o endereço que aparece no site da instituição:
"Prezados Colegas,
Gostaria de pedir-lhes a gentileza de retirar meu nome e informações sobre meu estúdio de yoga do seu site, ou da Uni-Yôga. Agradeço a menção, mas como não ensino essa modalidade, nas pesquisas no google e outros sites de busca, paira uma certa confusão. Sei que estou inserida no ícone "outras modalidades" no seu site, mas isso não fica claro para quem apenas olha sem se aprofundar nas buscas por nomes e locais de prática.
Eis como aparece no Google, por exemplo (em vermelho):
É muito comum a gente achar que o oposto de ser jovem é ser velho, e que o oposto de algo novo é algo antigo. Simplistamente colocando, é assim mesmo que as coisas acabam funcionando na vida real.
Exemplificando: um homem de 20 anos é jovem, mas um de 70, é velho; uma casa recém-construída é nova, uma construída em 1910 é antiga. Matemática simples e descomplicada, que lida meramente com o tempo sob o aspecto cronológico.
Mas existe o aspecto psicológico do tempo, que não é tão óbvio e fácil assim de se calcular. E é exatamente ele que delimita a fronteira que transforma, por exemplo, a velhice em uma continuação sábia e saudável da juventude, ou que tranforma seres humanos em gente novinha e gente antiguinha.
Existem dois conceitos que, ao meu ver, estão sempre aliados ao se ser novo ou antigo: a imaturidade e o preconceito.
A imaturidade gera uma insaciável sede por novidades, enquanto que o preconceito nos transforma em seres abertamente antiquados e ultrapassados (na melhor das hipóteses!).
O imaturo não sabe lidar com as frustrações. Já o preconceituoso sequer admite a existência das frustrações!
O ponto-chave desses conflitos fica mais claro quando o correntemente considerado como "certo" é ser sempre fisicamente novo, mesmo que psicologicamente antiquado.
Já o ser jovem ou ser velho não são opostos, mas fluxos contínuos de aprendizagem e sabedoria. O jovem que está sempre aprendendo torna-se um "jovem sábio", ou um "velho", como costumamos dizer.
Só consegue ser velho aquele que detém a sabedoria da experiência das vivências da alma. Todos conhecemos pessoas jovens fantásticas aos 70, 80, 90 anos! Ao passo que todos também conhecemos gente antiquada aos 20, 30, 40, 50...
Agora, o grande barato de tudo isso é que a gente pode escolher entre ser eternamente jovem ou ser temporariamente novo. Só que, pra isso, é preciso aprender a ler, além do tempo do corpo, o invisível e sensível tempo da alma.
Yoga no Caminho - Encontrando Inspiração para sua Prática Pessoal
Muito se fala sobre a possibilidade de Jesus ter sido um yogi. Historicamente, pesquisa-se sobre a vida de Jesus de Nazaré, tentando-se encontrar indícios de fatos que atestem sua trajetória da infância à idade adulta. Dessas fases, nada se sabe de concreto. Esse Jesus histórico é, ainda hoje, quase um enigma.
Mas há também o Jesus símbolo do messias, do profeta, do mestre. Esse é o Jesus Cristo que os evangelhos retratam. O homem-deus que continua transformando a humanidade intrínseca à própria história da humanidade. Se ele foi ou não um yogi não tem nem a importância nem a relevância que se costuma preconizar nos meios do Yoga. São suas palavras, gestos e atitudes que podem, efetivamente, trazer nova luz à prática do Yoga e não o contrário!
Neste workshop teórico-vivencial, refletiremos sobre algumas parábolas, histórias, palavras e ações atribuídas a Jesus, que são narradas por seus discípulos nos evangelhos. Inspirados por essa reflexão, serão sugeridas propostas para a prática de asanas, pranayamas, mantras, meditação...Em síntese, estaremos elaborando uma prática reflexiva capaz de inspirar o desenvolvimento de novos olhares sobre alguns conceitos pré-estabelecidos do repertório de técnicas yóguicas.
Os principais tópicos são:
- Vivenciando a natureza intrínseca das posturas - O entendimento do que vibra a palavra - O jejum, o celibato e o sacrifício - O gesto que transparece a alma - O olhar lúcido que vem do coração-razão
Atividades desenvolvidas: leituras, práticas e vivências.
Obs.: Se você ainda não pratica Yoga também poderá participar, por ser um workshop onde, além da parte prática ser possível de ser realizada por pessoas de variados níveis de condicionamento, as partes teórica e vivencial são direcionadas a todos que nutrem real interesse e respeito pelo tema.
Aula prática, com duração de três horas, englobando os oito passos do Yoga de Patañjali, ou Ashtanga Yoga, como descrito no Yoga-Sutra e complementado pelo Hatha Yoga Pradipika.
Se você ainda não pratica Yoga e tem interesse em conhecer, você será muito bem-vindo. Só é necessário que não se encontre em tratamento médico que desabone a prática ou em condições físicas limitantes. Se tiver dúvidas, escreva perguntando.
- Sabe que só no terceiro encontro a gente transou?
Olhares e silêncio.
- Sabe que, pra hoje em dia, isso é muito tempo?
Silêncio constrangedor.
Explico: os monólogos são de um amigo meu, os silêncios são meus.
Há um ano atrás, quando ele me disse isso, devo confessar que eu tinha uma queda por ele... Mas, aí, sabe como é, apareceu uma garota e pumba: fui pro espaço! No começo, não acreditei que eles fossem ficar juntos por mais do que uns, sei lá, dois meses. Mas eles estão juntos até hoje e, ao que tudo indica, ele está satisfeito com o que tem, e, me atrevo a palpitar, devem até se casar.
Por ter passado por essa experiência, comecei a prestar mais atenção à minha volta, procurando entender pelo menos um pouco do que tinha me acontecido.
Não sei se entendi, mas minhas observações estão se transformando numa pesquisa informal: observo as atitudes de pessoas que eu conheço, que são somadas aos comentários que ouço e aos desabafos que escuto. E, pasmem, depois de um tempo fazendo isso, passei uns três meses me sentindo quase um lixo de mulher.
Querem saber por quê?
A continuação deste texto (Sobre homens & mulheres: tudo tão igual!!! Uma nova ética para os relacionamentos - Parte II) está no meu blog Campo Livre-Aberto: http://campolivreaberto.blogspot.com . Você pode contribuir positivamente deixando seu comentário, levando outros leitores (e especialmente a mim!) à reflexão e expansão da compreensão sobre este tema.
Segundo os antigos yogis, a felicidade mora nas profundezas de uma caverna, que eles chamam simplesmente de Coração ou Anahata.
Talvez essa colocação explique por que tanta gente diz que a felicidade não pode ser geograficamente encontrada: pois é um estado interno! E esse Coração, com maiúscula, não é o mesmo coração físico, com minúscula, o orgão.
Daí, a gente acaba concluindo que, além de interior, a felicidade também é invisível. Pelo menos, para olhos comuns, fisiologicamente comuns, assim como os meus.
Talvez, não seja de todo errado dizer que a felicidade é um fluxo interior invisível, mas que se pode sentir, assim como as águas fluindo de um rio.
Agora, pense: mas como é que a gente sai tão fácil desse fluxo, uma vez que ele parece ser uma coisa natural, uma natureza que nós temos plantada em nós desde sempre?
Talvez, também não seja errado dizer que, para que possamos modificar algumas condições limitantes e desgastantes de nossas vidas, devemos retomar esse fluxo, voltar a fluir...
Quando nos desvíamos desse fluxo chamado felicidade, conhecemos coisas como o sofrimento, o arrependimento, a dor.
Mas aí vem de novo a dúvida: como é que a gente sai tão fácil desse fluxo? Como é que a gente de repente se perde e pára de fluir?
É, porque esse fluir me parece ser tão natural, como uma natureza plantada dentro de nós desde sempre!
(É, eu repeti mesmo, de propósito!)
Não admira que alguns digam que o Paraíso é como um imenso jardim: tão natural, tão bucólico, tão romântico... Mas, com um rio fluindo no meio, é claro! E com um barco, que é pra gente usar caso não saiba nadar, caso não se lembre de como fluir!
Nesse momento Alice in Wonderland, eu deveria ter dito o seguinte:
Talvez, a gente se perca tanto desse fluxo chamado felicidade por não sabermos sentir os nossos mais profundos desejos, por não sabermos o que realmente mais queremos.
Você sabe o que realmente mais quer na vida? Ou você fica confuso e com medo, simplesmente "querendo sem querer" de verdade?
Esses vacilos conflitantes tiram a gente do rumo certo, desviam os nossos verdadeiros sentimentos e instalam um sistema de insegurança.
Nos transformamos em terroristas de nós mesmos e sabotamos a nossa própria felicidade.
É claro que os outros contribuem, e muito, mas não tanto a ponto de destruir esse manancial interior por onde flui a mais pura felicidade.
Por isso, quando você estiver em dúvida quanto ao que realmente mais quer, quando não estiver conseguindo sentir qual a melhor direção a seguir, quando seus objetivos parecerem estar se distanciando cada vez mais de você, quando até sua prática de Yoga parecer não fazer mais sentido (e isso já aconteceu inúmeras vezes comigo), espero que possa lembrar-se de que existe uma caverna aí dentro, esperando para revelar a luz e fazê-la brilhar tão intensamente que não lhe restará outra saída a não ser sorrir. Sorrir muito, da mais pura felicidade.
Talvez, também não seja errado afirmar que o sorriso espontâneo é um sintoma visível dessa invisível, mas nem por isso menos real, felicidade.
Wandafuru Raifu é o título de um lindo filme japonês realizado pelo diretor Kirokazu Kore-eda, lançado em 1998, que em português se chama Depois da Vida.
Basicamente, fala sobre a vida após a morte, retratando um local numa espécie de dimensão intermediária entre-planos, sendo um deles o da Terra. Nesse local, pessoas que acabaram de morrer são apresentadas ao que poderíamos chamar de funcionários-conselheiros. Durante três dias, esses conselheiros auxiliam essas pessoas a examinar suas memórias em busca de um momento inesquecível de suas vidas. O momento escolhido será, então, recriado num filme que, por sua vez, será a única lembrança que poderão levar para o próximo plano (seja ele qual for!).
A tônica do filme não são as explicações, mas as recordações, ou, em outras palavras, o significado profundo que permeia nossa memória afetiva, nossas lembranças.
Pense bem agora e responda:
Se hoje, neste exato momento, você tivesse que escolher uma única lembrança para transformar num filme, qual seria? Quem faria parte dela? Que sentimento maior iría envolver essa lembrança?
Uma idéia perfeita e poeticamente bela, mas nada fácil de ser realizada.
Num dos vários momentos tocantes desse filme, existe um muito especial: o de se reconhecer como sendo a mais importante lembrança de uma outra pessoa...
Pois é, sem saber, podemos fazer parte da recordação mais valiosa da vida de alguém, podemos ser essa inesquecível lembrança.
A tradução mais próxima do título em japonês seria A Vida é Maravilhosa. E, apesar do tema da morte não nos remeter de imediato à idéia da felicidade como sendo uma vivência simples, singela e possível, aos poucos vamos percebendo que a vida é, sim, maravilhosa! Especialmente, quando vivida com o melhor e maior dos nossos sentimentos: o Amor.
Vale a pena assistir Wandafuru Raifu. Ou, quem sabe, assistir de novo, com um novo olhar...
Outro dia, durante uma aula, falávamos sobre o tantrismo e alguns conceitos associados, entre eles os princípios energético-mitológicos de shiva & shakti. Nem preciso mencionar que acabamos falando sobre relacionamentos amorosos, claro! Além de muito proveitoso para os alunos, me foi particularmente inspirador, pois me permitiu refletir sobre o tema, mais especificamente em relação às uniões, ou ao bom e velho conhecido nosso: o casamento.
Acabei, de forma bem prática, elaborando o seguinte texto:
Algumas regras básicas
(1) Sinceramente, acho que ninguém, nenhum ser humano, seja do sexo masculino e/ou feminino, deveria se casar antes dos trinta anos. Deveria haver uma lei planetária, limitando o mínimo de idade cronológica que alguém deveria ter antes de poder se casar (seja com ou sem papel passado, seja no Brasil ou na Conchinchina).
(2) Quanto a constituir família, então, isso se daria somente após três anos de casamento regular, estável, saudável. Pelos cálculos, isso seria por volta dos trinta e três - uma idade, no mínimo, famosa.
(3) Andei pensando, também, que o casal deveria ter que comprovar que não precisam um do outro para continuar fisiologicamente vivendo, que o ser amado não é um tipo de balão de oxigênio, que supre o ar que falta à existência daquele que ama.
(4) Por extensão natural, deveriam, ainda, comprovar que não se necessitam financeiramente, isto é, que podem sustentar-se dentro de seus próprios padrões econômicos e estilos de vida.
(5) Isso tudo com um adendo: o de já serem realizados em suas próprias profissões - o que poderia afastá-los da fatal tentação de transformarem o casamento num grande negócio, numa parceria comercialmente rentável.
(6) Pensando e pensando, conclui claramente que, para que essas regras básicas possam ser sustentadas e se tornar uma plausível realidade, ambos os amantes deveriam ter que poder atestar (sob juramento oficial, passível de punição de acordo com a lei) que podem muito bem viver sozinhos, em solitude, por si sós, e que não têm nenhum tipo de dependência ou vício psicológico estritamente vinculado ao tão amado ser amado.
Bom, como o tema é extenso, denso, complexo e inesgotável, vai continuar dando muito pano pra manga. Mas, para começar, essas seis regrinhas básicas me parecem suficientes, além de bem trabalhosas de serem seguidas.
A arte do silêncio interior chama-se Antar Mouna. É quando a mente entra num estado de aquietamento, de conforto sem conflitos, sem discussões nem argumentações. A mente simplesmente fica quietinha e relaxada, sem necessidade de se justificar.
Ficar em silêncio é essencial, embora pareça ser uma tarefa hercúlea, praticamente impossível de se realizar. Podemos até ficar sem pronunciar palavras ou emitir sons durante um certo tempo, mas a cabeça, essa não pára nunca de tagarelar. Por isso, ficar com a boca fechada, sem falar, não significa a mesma coisa que praticar a nobre arte do silêncio.
É extremamente comum confundir-se o não ter nada a dizer, seja por desmotivação, por preguiça, por incapacidade intelectual, por intimidação, por timidez, por falta de argumentos ou mesmo por traumas e distúrbios, com ficar em silêncio por opção, sensibilidade e inteligência.
Fazer silenciar pelo uso da força e da admoestação, bem como pelo abuso de poder, é uma das formas mais brutais de violência e de cerceamento da liberdade de expressão. Por outro lado, falar tudo o que se pensa, sem uma triagem reflexiva contextual, concomitante com a situação e o momento, não é ser autêntico, carismático, sincero e muito menos verdadeiro: é apenas uma outra forma (ao que tudo indica, mais aceita na nossa sociedade tão carente de gentilezas e de atitudes éticas) de grosseria e violência.
Antar Mouna parece nascer no "descanso" do cérebro e atingir as camadas mentais, em seus vários níveis e profundidades, predispondo-as à manutenção do silêncio. Mas Antar Mouna também, e especialmente, nasce no sentimento do coração, se espalha pelo restante do corpo e chega à mente, de maneira natural, voluntária e sem imposições. Isso porque, no Yoga, não existe uma divisão explícita entre corpo e mente, mas tão somente a possibilidade de se vivenciar e sentir a fluidez entre um e outro.
Do mesmo modo, som e silêncio não devem ser vistos como antagônicos ou radicalmente separados. O silêncio, em si, não supera a força das palavras que carregam idéias e significações, assim como palavras vãs não conseguem suplantar o fecundo e profundo silêncio que vem do âmago do ser. Porém, é muito importante perceber que, enquanto houver imposições, o essencial silêncio interior não pode existir, assim como a sabedoria das palavras não pode se manisfestar.
Silêncio é liberdade.
Som é liberdade.
Palavra é liberdade.
Entre calar e falar, valorize e aprenda com os dois. Mas, naquele momento crítico de indecisão, de dúvida cruel, onde não se tem a menor idéia do que dizer, vale lembrar-se do ditado popular:
"Em boca fechada não entra mosquito".
A bem da verdade, não entra nem mosquito nem nada mais! Mas, o interessante nesta analogia, é observar não especificamente o ato de "não entrar", mas ode"não permitir sair".
Concordo que este é apenas um dispositivo de emergência até simplista, porém útil, para que o indesejável "não saia" impensada e abruptamente sob a forma de palavras, que podem vir a ferir profundamente um outro ser humano. Mesmo porque, nem sempre quem cala, consente. Algumas vezes, quem cala está apenas exercendo a capacidade de ser consciente.
"O Yoga nos ensina a curar o que não precisa ser suportado e a suportar o que não pode ser curado".
E isso não somente no campo físico, mas em todas as áreas da vida.
Talvez este seja o momento de considerar a possibilidade de você estar sofrendo desnecessária e fantasiosamente ou, por outro lado, a possibilidade de estar mascarando uma revolta contida e ligada à não-aceitação de sua própria condição.
Reflita e tome as rédeas de sua vida de forma firme e ao mesmo tempo flexível, curando o que você não tem que suportar e aceitando aquilo que, pelo menos por enquanto, ainda não dá pra curar. Mas perceba, também, que Iyengar não nos fala em desistir: de tentar, de buscar, de aguardar, de perseverar.
As palavras de Iyengar não são de resignação!!! São de transformação!!!
Lembre-se bem disso antes de se conformar com a vida, com a sua vida.
Fluir & deixar fluir: esta é a arte, esta é a cura!
"A vida é mesmo assim: dia e noite, não e sim", diz o poeta Lulu Santos na canção.
Didaticamente falando, a vida está repleta de dualidades, que são comumente consideradas como estados opostos. De forma ilustrativa, eu particularmente costumo denominar esses estados dualistas baseada na nossa velha conhecida expressão: "altos e baixos". E a vida é, sim, mesmo assim: cheia de altos e de baixos. Na concepção da maioria, mais cheia de baixos do que de altos!
Só que aquilo que parece ruim a princípio, pode se revelar uma grata oportunidade de superação dos próprios limites. E aquilo que pode soar masoquista e pessimista para alguns fanáticos otimistas de plantão, pode vir a se tornar a mola propulsora para uma mudança há muito desejada.
Ainda não há como negar que é somente nas horas difíceis, e até mesmo inexplicáveis, que somos efetivamente testados em nossas convicções mais profundas. Ser feliz em tempos abastados e prósperos é redundância. Conseguir ser feliz apesar de todas as adversidades é sabedoria.
Nossos altos e baixos recebem o nome técnico de crises. E todos nós, indistintamente, vivemos imersos em nossas crises pessoais, pois não há como ser diferente: faz parte do nosso processo inato de amadurecimento e de transcendência de nossas próprias limitações.
Como ensinam algumas tradições orientais, agradeça a existência de seus inimigos muito mais que a de seus amigos!
A princípio, esse conceito pode parecer demasiado árduo para se refletir a respeito, mas seus maus bocados na vida vão fazer com que você se supere sempre e cada vez mais. Por mais inverossímel que possa parecer, tenha certeza disso e confie em sua intuição, pois a noite não é oposta ou antagônica ao dia, mas tão somente seu complemento, sua continuação e sua valorização. Do mesmo modo, seus períodos mais críticos e difíceis, que abarcam suas mais amargas crises, são apenas fases preparatórias para que você possa efetivamente se superar e aprender a valorizar a vida como a maior de todas as dádivas, como seu melhor e mais valioso presente.
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman tem, em sua extensa obra, três títulos preciosamente interessantes: Liquid Life, Liquid Fear e Liquid Times: Living in an Age of Uncertainty. Este último, se não me engano, foi traduzido por aqui com o título de Relacionamentos Líquidos. Daí a analogia com o título desta postagem.
Quando soube da patética história protagonizada por determinado professor de yoga, que mereceu reportagem no programa Fantástico, da Rede Globo, não consegui evitar o literal trocadilho: guru líquido!
Com todo o meu respeito e solidariedade às vítimas e aos seus familiares, se a coisa toda não fosse tetricamente trágica, seria grosseira e repugnantemente cômica, ao modelo de alguns programas de tv que se dizem humorísticos.
Por conta disso, poderia escrever aos montes, falar aos montes, espernear aos montes, rir aos montes, blasfemar aos montes, assim como essas vítimas eliminaram o que eliminaram aos montes.
Mas, vou me ater ao que Bauman sugere: vivemos numa época de relacionamentos líquidos, onde a substância está vertiginosamente cedendo lugar à liquidez, à fluição gratuita, rápida e fortuita de nossas opções e afeições.
Vivemos numa época de gente líquida, escorregadia, facilmente absorvível, assustadoramente moldável e adaptável.
Vivemos numa época em que a única certeza é exatamente a incerteza. Por isso, vivemos numa época em que buscamos desenfreadamente nos outros aquilo que só podemos encontrar em nos mesmos.
Toda essa gente lesada por esse tal guru de meia tigela, a exemplo de vários outros que nem sequer imaginamos que possam existir, estava, no fundo, buscando uma certeza substancial para suas vidas. Pois é exatamente isso o que as pessoas costumam buscar quando optam pela prática do Yoga: substância vital.
Agora, vou dizer uma coisa bastante óbvia, que você vai compreender muito bem: só pode ofertar substância quem a tem e sabe como cultivá-la. Gente líquida, em especial aqui os fake gurus, não têm a menor noção do que isso possa significar.
Lastimável, tudo isso. Mas que nos sirva de mais uma lição.
Para quem ainda não viu a reportagem do Fantástico e quer saber sobre o assunto.
Muitos são os leitores que me escrevem perguntando exatamente isso:
Mas, afinal de contas, Yoga é religião? Porque tem uma parte que é tão espiritual, elevada, etérea, mística, etc e tal.
No intuito de favorecer a reflexão sobre este tema, estou publicando aqui um texto, escrito em 2003, que procura agregar informações abalizadas de yogis & pesquisadores de reconhecimento comprovado.
Boa leitura e que possa lhe ser útil.
Namaste!
Rosana
O Katha-Upanishad , cuja composição situa-se por volta dos séculos IV ou V a.C. (mas como não há como ser conclusivo nessa data, alguns pesquisadores o situam como posto por escrito no ano 1000 a. C.), é um texto que é tido, em geral, como o mais antigo a tratar explicitamente do Yoga. Segundo Georg Feuerstein, em A Tradição do Yoga :
"O desenvolvimento das novas doutrinas yogues se dá, no texto, em torno de uma antiga lenda: certa vez, um brâmane pobre ofereceu aos sacerdotes, como taxa de sacrifício, algumas vacas velhas e fracas. Seu filho Naciketas, preocupado com o destino do pai na outra vida, ofereceu-se a si mesmo como oferenda mais digna. Despertou com isso a ira do pai, que enviou-o a Yama, soberano do mundo da morte. Yama, porém, estava ausente, e Naciketas teve de esperar três dias sem comer nem beber até que o poderoso deus voltasse ao seu reino. Satisfeito com a paciência do rapaz, Yama concedeu-lhe três pedidos.
Primeiro, o rapaz pediu que fosse devolvido vivo ao seu pai. depois, pediu para conhecer o segredo do fogo sacrificial que leva ao céu. Por fim, insistiu em conhecer o mistério da vida após a morte. Yama procurou fazer o rapaz desistir do terceiro pedido, oferecendo-lhe em lugar dele outras coisas aparentemente muito mais interessantes, como filhos e netos, uma vida longa, rebanhos imensos, a convivência com as ninfas celestes, etc. Quando viu que Naciketas jamais desistia do pedido, Yama passou a instruí-lo no caminho da emancipação. Num certo nível, a história retrata a determinação que os que buscam a espiritualidade têm de ter no caminho, desafiando até mesmo a morte. Num outro, representa o processo iniciático, que exige reclusão, o jejum e o confronto com a morte."
Nesse texto, os ensinamentos transmitidos por Yama (simbolizando o mestre), a Naciketas (que simboliza o aspirante ou discípulo), no caminho da emancipação, revelam que o Yoga é esse árduo caminho.
O primeiro grande significado do Yoga é o de ser uma via da espiritualidade que demanda determinação, aplicação e disciplina, e não, propriamente, o de ser mais uma forma de religião como a concebemos na atualidade. Tanto que a doutrina proposta pelo Katha-Upanishad é chamada de Adhyatma-Yoga - o Yoga do Si Mesmo Profundo.
Swami Vivekananda (quem oficialmente apresentou o Yoga ao Ocidente em 1893) assim descreve o surgimento do Yoga:
"Assim, o homem, depois de suas buscas vãs de vários deuses, completa o ciclo e descobre que o Deus imaginado por ele como sentado no céu, governando o mundo, é seu próprio Eu. Nenhum outro, a não ser o Eu, era Deus, e o pequeno eu jamais existiu." (em Quatro Yogas de Auto-Realização)
Ao constatar a existência de um Eu Superior (em sânscrito Atman ), cuja manifestação interior é a própria essência do Yoga, nas palavras de Swami Vivekananda, o homem percebe a possibilidade de um Deus não-pessoal, isto é, de um Deus não-dogmático, cuja forma e comportamento não se encaixam especificamente em nenhuma das grandes religiões da humanidade, se bem que não exclua a nenhuma delas. Inclui-se aqui o Hinduísmo, que, segundo algumas análises, de fato não incorporou o Yoga entre suas práticas - embora um dos textos consagrados ao Yoga, o Bhagavad Gita , seja um dos capítulos mais conhecidos do Mahabharata , a epopéia da Índia e do Hinduísmo.
A palavra Deus no Yoga não se relaciona ao seu sentido apenas religioso, mas especialmente ao seu sentido metafísico e transcendental. De acordo com Georg Feuerstein:
"Deus, nesse sentido, não é o Deus Criador das religiões deístas, como o Judaísmo, o Islamismo e o Cristianismo. Antes, Deus é a totalidade transcendental da existência (...)". (em A Tradição do Yoga )
E ainda, como bem salientou Swami Sivananda em seu livro Bliss Divine :
"A prática de Yoga não se opõe a nenhuma religião. Ela é puramente espiritual e universal. Não contradiz a fé sincera de ninguém. O Yoga não é uma religião, mas um auxílio à prática das verdades espirituais básicas em todas as religiões. O Yoga pode ser praticado por um Cristão ou um Budista, um Muçulmano, um Sufi ou um ateu."
Portanto, o Yoga se caracteriza como um caminho que pode ser trilhado indistintamente por todos, quer sejam religiosos ou ateus, e especialmente por aqueles que não se detiverem apenas nas diferenças entre suas várias escolas, mas que celebrarem as semelhanças entre todas elas.
Toda vez que olhamos para alguma coisa ou alguém, estamos entrando em contato com uma dimensão que engloba o reino do sagrado. Praticamente tudo pode ser visto como sagrado ou como profano: só depende do olhar.
Fora de nós, as pessoas e suas atitudes, os objetos e suas utilizações, a própria natureza, são apenas o que são: nem mais nem menos. As atribuições, somos nós quem as ofertamos.
- É preciso ter olhos para ver, minha querida!, diziam meus pais desde minha mais tenra idade.
De fato, quando criança, algumas vezes meus olhos chegaram a arder e a lacrimejar, de tanto fixá-los naquilo que me chamava a atenção. Era uma coisa de olhar prolongadamente que, guardadas as devidas proporções, carrego comigo até hoje, embora de forma bem mais amenizada, treinada e educada.
O olhar é a única coisa que verdadeiramente suprime a necessidade das palavras e é capaz de transformar o silêncio em divina melodia.
O olhar exprime o fluxo da alma e revela a essência das ações.
Especialmente no Yoga, o olhar tem uma função muito especial e sensível: a de fazer despertar em nós o significado do profundo e do sagrado em todas as coisas, em todos os seres.
Simbolicamente, o Yoga também é designado apenas para aqueles que têm "olhos para ver".
É preciso ter "olhos que queiram ver" para se poder enxergar a essência e a sabedoria do Yoga, bem como da própria vida, em toda sua plenitude e beleza.
Hasya, em sânscrito, significa sorrir, gargalhar, dar risada. E o Hasya Yoga tornou-se, portanto, o Yoga do Riso.
Parece brincadeira e até motivo de riso, mas posso assegurar que a coisa é séria. Tão séria, que na Índia já existem associações dedicadas especialmente a essa, digamos, modalidade. São espécies de clubes, onde os membros se reúnem para rir durante períodos que duram, em média, uma hora.
O idealizador do Hasya Yoga é o médico indiano Madan Kataria, que assim resolveu chamar seu método terapêutico, pois ele é inspirado em algumas técnicas do Yoga, mais especificamente os pranayamas e os asanas. Digamos que ele tomou emprestadas essas técnicas e as adaptou para formar seqüências harmônicas que têm por finalidade simular uma boa gargalhada. E se você ainda tinha alguma dúvida de se rir é realmente o melhor remédio, o Dr Kataria parece que já não tem nenhuma. Segundo ele:
"Essa prática do riso passa progressivamente de um exercício de sons ho ho, ha ha para outros tipos de risadas simuladas. É o que chamo de meu 'coquetel de risadas'."
Cada risada é mantida pelo tempo médio de 45 segundos e é seguida de exercícios de respiração profunda e de alongamentos. No repertório, há vários tipos de risadas, entre as quais encontram-se, por exemplo, a do coração, a da saudação, a silenciosa, que é feita com a boca aberta, a do leão, e uma ainda mais dinâmica, que inclue movimentos giratórios dos braços.
Um detalhe importante: o Hasya Yoga foi concebido para ser praticado em grupos com vários participantes, porque a motivação é muito maior, e compartilhar esses momentos de alegria pode fazer toda a diferença para se alcançar melhores resultados.
Segundo Kataria, a prática regular do Yoga do Riso promove:
- melhora da musculatura abdominal, que ajuda a tonificar o sistema digestivo;
- aumento da pressão arterial e dos batimentos cardíacos, que ajudam a estimular e a tonificar o sistema circulatório;
- melhora da tonicidade do sistema respiratório, pela utilização da plena capacidade dos pulmões, devido à absorção do prana;
- melhora da auto-estima, promovendo a auto-aceitação e desenvolvendo um olhar mais positivo em relação à vida.
"Rir nesses clubes do riso é a forma mais pura de dar risada, porque não há nenhum motivo especial para que isso aconteça. Não é um riso dirigido aos outros, mas sim a nós mesmos, pois aprendemos a rir de nós mesmos", diz Kataria.
O filósofo que ri
E muito embora eu concorde em gênero, número e grau sobre a importância de se ter bom humor, de poder rir de si mesmo e de poder levar alegria a outras pessoas, deixo aqui um motivo de reflexão: o desespero também é capaz de provocar muitas gargalhadas. Lembram-se de Demócrito, que ficou conhecido como o filósofo que ri? Ele viveu em cerca de 460-370 a.C. e foi o responsável por uma das primeiras teorias sobre os átomos, conhecida como Teoria Atomística, que, por sua vez, filosoficamente deu origem a uma teoria ética.
A teoria ética de Demócrito era baseada em um sistema puramente determinista, eliminando assim qualquer liberdade de escolha individual. De forma bem resumida, pode-se dizer que, para Demócrito, a liberdade de escolha era uma ilusão, já que não podemos alcançar todas as causas que levam a uma decisão. E por isso, Demócrito ria: de desespero, do mais puro desespero.
Por isso, vou finalizando com uma passagem de Amor pra recomeçar, de Roberto Frejat - um poeta-músico contemporâneo, que é mais conhecido apenas como o Frejat do grupo Barão Vermelho - que, na minha opinião, sintetiza muito bem o sentimento de se poder exercer tanto a alegria quanto a tristeza que existem em todos e em cada um de nós:
"Quando você ficar triste, que seja por um dia e não o ano inteiro, e que você descubra que rir é bom, mas que rir de tudo é desespero."
Diz um antigo provérbio chinês que as mais altas torres começam no chão. Parece óbvio que assim seja, mas, na vida real, as coisas não acontecem bem assim. Começar do começo é tarefa para poucos. E começar do começo e continuar persistindo, apesar dos pesares, é tarefa para pouquíssimos.
A narrativa abaixo é de Swami Prabhavananda, uma passagem de um conto indiano que exemplifica bem a importância de se estar preparado e disposto a começar do começo. Diz ele:
"Certo homem procurou um mestre e pediu-lhe para ser seu discípulo. Com intuição espiritual, percebeu o mestre que o homem não estava ainda preparado para ser instruído. Por isso, lhe perguntou:
- Você sabe o que precisa fazer para ser meu discípulo?
O homem respondeu que não e pediu ao mestre que lho dissesse.
- Bem, disse o mestre, você precisa ir buscar água, apanhar lenha, cozinhar e trabalhar muitas horas em serviços pesados. Precisa também estudar. Está disposto a fazer tudo isso?
O homem respondeu:
- Sei agora o que o discípulo precisa fazer. Diga-me, por favor: o mestre, o que ele faz?
- Ah, o mestre fica sentado, e, em sua maneira recolhida, dá as instruções espirituais.
- Entendi, disse o homem. Nesse caso, não quero ser discípulo. Por que você não faz de mim um mestre?"
E Swami Prabhavananda conclui:
"Todos nós desejamos ser mestres. É preciso, porém, que antes de nos tornarmos mestres, aprendamos a ser discípulos."
Em pleno século 21, quando as mais variadas tradições estão sendo questionadas e as palavras ética, atitude e responsabilidade conscientes parecem não fazer mais sentido, começar e/ou recomeçar do começo e persistir - a despeito de alguns dos mais desvairados modismos comportamentais - é o verdadeiro desafio.
Sugestão de leitura
Para quem quer conhecer um pouco mais sobre a sempre tão delicada relação mestre-discípulo, sugiro a leitura de dois livros mundialmente conhecidos:
Autobiografia de um Yogi, de Swami Paramahansa Yogananda, e Vivendo com os Mestres do Himalaya, de Swami Rama.
Há várias histórias relatando os poderes excepcionais dos mantras, mas há pouquíssimas esclarecendo a realidade por trás desses fenômenos. Por isso, estabelece-se uma ligação de mistério e de segredo, como se o verdadeiro mantra devesse ser mantido a sete chaves e somente ser revelado a alguém muito especial e preparado para receber essa transmissão.
Fala-se muito que o mantra, para ser legítimo, deve ser transmitido por um guru ou mestre qualificado. Fala-se também que deve ser individual, o que significaria que cada pessoa tem seu próprio mantra, uma espécie de mantra pessoal. Mas o que se fala mesmo, é que os mantras são palavras secretas e poderosíssimas.
Essa coisa do poder é sempre muito delicada. Mas os "poderes" que envolvem os mantras não deveriam ser associados a realizações externas de desejos pessoais, por mais valorosos e dignos que esses desejos possam ser. Esse é sempre um aspecto limitador do mantra, como o é para as demais atribuições confiadas ao Yoga. Segundo Patañjali, os poderes são perfeições no estado de vigília, ou do mundo ordinário de causas e efeitos, mas eles constituem obstáculos no estado do conhecimento supremo.
Certa vez, perguntaram a Ramana Maharshi se era verdade que os yogis tinham mesmo esses poderes meio mágicos, entre eles o poder de devolver a vida a um morto ou até mesmo de ressuscitar. Ramana resumidamente disse que sim, que era verdade, mas que nunca e nem niguém pedisse isso a ele, pois ele não tinha, e nem queria, esse poder ou outro qualquer. Para Ramana, essa coisa de poderes não era nada atraente...
Swami Tilak dizia que os mantras não são secretos, são apenas sagrados, e Patañjali nos ensina que os poderes nunca são a meta, mas apenas pequeninas e praticamente insignificantes vias de reconhecimento, os quais devem ser, ao seu devido tempo, totalmente descartados.
E, mais uma vez, a sabedoria de Ramana Maharshi flui com muita precisão quando ele diz que todos os grandes reis e estadistas, de tempos passados e de agora, sempre lutaram pelo poder, tentando governar outros, quando bem no seu íntimo não conseguem governar a si mesmos. Segundo Ramana, o verdadeiro poder pertence somente àquele que sabe governar a si mesmo, seguro de que aquilo que não está dentro de si, não pode vir de fora. Da mesma forma, os mantras só podem ser considerados poderosos quando vibram de encontro ao verdadeiro poder já instalado do lado de dentro do ser. Caso contrário, não passam de superstições que exacerbam ainda mais a ignorância, a intolerância e o preconceito.
Por um ângulo mais pessoal, penso que falar sobre poderes que racionalmente beiram a ficção sempre confere um ar de mistério e de descrença em relação a algumas práticas do Yoga, incluindo as mântricas. Ao mesmo tempo, essa tendência não traz nenhuma informação nova e, a longo prazo, somente serve para afastar as pessoas lúcidas e inteligentes que buscam o Yoga para descobrir poderes mais "simplezinhos", como se conhecer melhor para viver melhor, respeitando e convivendo pacificamente com todos os demais seres e a natureza. Se pudéssemos viabilizar apenas essa realidade, esse seria, sem dúvida, o maior e mais poderoso de todos os poderes imagináveis, pois ao invés de ressucitarmos os mortos, celebraríamos uma vida justa e feliz para todos; ao invés de podermos caminhar sobre as águas, simplesmente teríamos água potável em abundância para prover, alimentar e manter a vida em harmonia.
Nas palavras sempre lúcidas de Thich Nhat Hanh:
"Milagre não é andar sobre as águas ou nas nuvens, mas dar cada passo consciente."
Como seres humanos, desejamos o tempo todo! Sempre digo que, ao acordar cedinho pela manhã, nosso maior desejo é poder continuar dormindo só mais um pouquinho...
Desejamos dezenas de vezes durante o período de um dia apenas. E uma vez que estamos nos referindo a desejos comuns, desejados por pessoas comuns, nada mais comum do que considerarmos o fato de sentirmos desejo como parte inerente à nossa condição humana.
Os desejos nos invadem por intermédio dos sentidos e dos estímulos externos. Essa é a parte óbvia dos desejos. Por isso, alguns ditados populares conseguem ser tão perspicazes, como o famoso "o que os olhos não vêem, o coração não sente".
Mas o que vai determinar nossa capacidade de irmos além do sentido óbvio dos desejos, é a auto-investigação, é o conhecimento das forças motrizes que geram esses desejos, é o desenvolvimento da aptidão de nos tornarmos conscientes dos conteúdos desses mesmos desejos e de seus possíveis desdobramentos e conseqüências. Porque, verdade seja dita, desejos são apenas desejos e existem primordialmente no campo da imaginação. Comumente não se transformam, ou são transformados, em realidade com propriedade e discernimento.
Um desejo só ganha corpo quando, pela ação da consciência e da vontade disciplinada, se transforma num querer mais profundo, numa superior força de vontade - o que vai sempre exigir trabalho, dedicação e disciplina.
As crianças, em sua ingenuidade e liberdade, desejam tudo o tempo todo e choram e esperneiam quando são frustradas em seus desejos. Um indivíduo adulto, maduro e consciente, entretanto, "supostamente" já deveria saber como lidar com suas frustrações que, via de regra, são conseqüências de desejos não-realizados e/ou não-realizáveis.
Pela prática regular do Yoga, nos transformamos, nos transmutamos em pessoas mais conscientes, com mais maturidade e mais força de vontade disciplinada e ética. E é a partir desse momento, que nascemos para um novo sentimento, entendimento e aproveitamento das várias forças que nos movem - entre elas, nossos incontáveis e, por que não dizer, inconfessáveis desejos.
Nas aulas de Iyengar Yoga, ninguém discute a importância que uma simples parede pode ter. Nesse estilo, parede é tudo: a gente se apóia na parede para realizar várias posturas, se pendura em equipamentos fixados na parede, se equilibra segurando na parede, sobe e desce pelas paredes, literalmente. Mas, ao meu ver, essas qualidades arquitetônicas não são as únicas utilidades que a parede pode ter nas aulas de Yoga de todos os estilos.
Saber utilizar bem um simples pedacinho de parede pode se transformar num procedimento ético permeado de extrema educação, delicadeza e sensibilidade, além de ajudar a evitar situações constrangedoras.
Embora nem sempre seja possível distribuir os espaços das salas de prática de modo a acomodar cada aluno com um segmento de parede atrás de si, esse é o meu diagrama preferido, desde a época em que ainda nem sonhava em ser professora de Yoga.
Lembro-me, a título de ilustração, de uma cena que aconteceu com um amigo, há muito tempo. Estávamos numa aula, com os tapetinhos uns atrás dos outros, em fila indiana. Eu fui lá para o fundo da sala, onde sabia existir uma parede bem atrás de mim. Meu amigo não teve a mesma sorte e, ainda por cima, tinha na sua frente uma garota linda, vestindo uma calça legging preta meio transparente, com um topzinho bem "inhozinho". Na hora de permanecer por míseros três minutos em Adho Mukha Svanasana, nem preciso dizer o que aconteceu com o meu amigo, tamanho foi seu constrangimento. Eu, lá atrás, percebendo a situação, comecei a rir bem baixinho, mas como eu estava na mesma linha de visão que ele, vi quando ele olhou, por entre o afastamento de suas pernas, na minha direção. Aí, não teve mais jeito: ele rindo de lá e eu de cá. E a moça, nem aí, linda e firme em Adho Mukha. Eu tentei disfarçar e fiz um Yoga Mudra para ninguém perceber e fiquei por lá mesmo, rindo bem baixinho, fingindo que estava respirando em Ujjayi. Já ele teve que agüentar firme até o final da aula.
Mas, esse foi apenas um dentre os vários momentos em que senti na pele a importância de ter uma parede ao meu dispôr. Uma outra vez, foi numa aula de meditação com focalização do olhar, os drishtis. Um rapaz, sentado bem na minha linha de visão... Bom, nem preciso continuar. Nesse momento, eu entendi por que os yogis meditavam em cavernas. Porém, dessa vez, não tive dúvidas: virei para a minha amada parede e imediatamente me senti numa caverna, a salvo de todas as distrações exteriores.
Com certeza, você deve imaginar outras situações reais tão comuns, e ao mesmo tempo engraçadas, que fazem parte da vida daqueles que se dedicam ao Yoga. E, apesar de toda a metodologia, foi também por essas e por outras que eu aprendi a valorizar a importância de uma simples parede.
Que eu sou admiradora do Dalai Lama (Tenzin Gyatso), tanto como Sua Santidade, como intelectual e como ser humano e cidadão do mundo, é nítido e notório. Considero-o uma pessoa admirável.
Quando, dia desses, abri o jornal e li a notícia de que um casal de acusados de crime hediondo e homicídio triplamente qualificado não tinha tido compaixão por sua frágil, inocente e indefesa vítima de apenas cinco anos, estarrecidamente percebi que essa é uma palavra, quase sempre, mal aplicada. Mas isso também serve pra mostrar o quanto usamos palavras de efeito cujos significados e abrangências sequer sabemos mensurar.
Compaixão é uma dessas palavras.
Usando os próprios dizeres de Sua Santidade, o XIV Dalai Lama, vou colocar aqui um tópico que considero fundamental para se refletir a respeito: a diferença básica entre compaixão com apego, ou parcial, e compaixão sem apego, ou imparcial, excetuando-se aqui qualquer cunho meramente religioso ou moralista.
Eis o que diz, a esse respeito, Sua Santidade:
"A compaixão pode ser aproximadamente definida em termos de um estado de mente que é não-violento, não-prejudicial, não-agressivo. Por isso, há o risco de se confundir compaixão com afeição e intimidade. Assim, constatamos que há dois tipos de amor ou compaixão. Por um lado, temos a compaixão ou amor que se baseia na afeição ou que está impregnada de compaixão. Esse tipo de compaixão ou amor e sentimento de intimidade é bastante parcial e distorcido. Baseia-se na consideração de que o alvo da afeição da pessoa é alguém muito querido ou próximo. Por outro lado, a compaixão genuína é livre desse afeto. Aqui, a motivação não é tanto o fato de que a pessoa é minha amiga, muito querida ou tem um relacionamento comigo. Em vez disso, a compaixão genuína baseia-se na razão de que os outros, assim como eu, também possuem um desejo inato de ser feliz e superar o sofrimento; assim como eu, os outros também têm o direito natural de realizar essa aspiração fundamental. Com base no reconhecimento dessa igualdade e comunidade fundamental, a pessoa desenvolve um senso de afinidade e intimidade; e com base nisso, a pessoa vai gerar amor e compaixão. Essa é a compaixão genuína."O primeiro tipo de compaixão, descrito pelo Dalai, é o que ele chama de compaixão com apego ou parcial: onde há intimidade, proximidade, amizade, cumplicidade, simpatia, atração. Esta é uma ilusória noção de compaixão. O segundo tipo, este sim legítimo, é o que ele chama de compaixão sem apego ou imparcial: onde não há intimidade nem amizade, onde pode até haver rejeição e discordância; nesse tipo de compaixão, há tão somente o reconhecimento da legitimidade do direito de todos nós (eu + os outros) de aspirarmos à felicidade e de superarmos o sofrimento, por mais que haja diferenças entre mim e outros seres.
Considero este um assunto essencial para a reflexão, facilitado aqui pelas palavras simples e didáticas do Dalai Lama - que, também por essa sua caracteristíca, de ser tão simples, direto e profundo, além de bem-humorado, tem minha admiração.
Nota: No vídeo, o Dalai Lama fala sobre a compaixão, a felicidade, o amor, o perdão... Vale a pena assistir e conhecer.
Por conta de colaboração para uma matéria, cujo tema central é como lidar com a raiva, me peguei refletindo sobre quanto tempo fazia desde a última vez que senti raiva de verdade. Fiz os meus cálculos e cheguei à conclusão de uma data específica. De lá pra cá, obviamente, surgiram algumas situações e episódios inquietantes, que me levaram a uma condição de indignação - sensação e palavra que eu acho especiais, além de muito úteis.
Numa amostra didaticamente light, me lembro agora que, em uma determinada ocasião, estava com uns amigos em um shopping aqui de São Paulo, quando recebi um telefonema de alguém que, para não dar mais detalhes, só posso dizer que "não deveria estar me ligando naquele momento", pois já havíamos conversado previamente. Mesmo assim, conversei, expliquei de novo, finalizei o papo. Três minutos depois, de novo. Tive que falar mais incisivamente, mostrar que não estava a fim de continuar ouvindo o monólogo em questão e pedi para desligar. Em seguida, toca de novo o telefone e, de novo, tudo de novo! Aí, fiquei indignada. Lembro-me que só disse que não queria mais ouvir, que não tinha mais nada para falar e desliguei o celular. Tudo isso ainda num tom de conversa. Respirei fundo e prossegui no meu passeio com aquelas pessoas tão interessantes, que, mesmo sem querer, acabaram vendo e ouvindo o que tinha acontecido nesses cinco minutos de liga-desliga.
-Você ficou com raiva?, me perguntaram.
- Não é raiva, não. É indignação.
Nesse momento, ainda que pudesse soar como desculpa esfarrapada, eu descobri que raiva e indignação são mesmo coisas diferentes, embora possam parecer iguais aos olhos de quem está só assistindo e não, sentindo.
Existe uma grande diferença entre sentir raiva e pensar sobre a raiva. Raiva a gente sente, não pensa a respeito. E a gente sente tanta raiva exatamente porque nunca pára pra pensar sobre ela, sobre o que, de verdade, pode causar raiva na gente. O raciocínio é tão simples que, de tão simples, chega quase a dar raiva.
Parar para refletir sobre a natureza da raiva e suas conseqüências é um exercício utilíssimo, pois só podemos tentar modificar algo que conhecemos e que sabemos os mecanismos de funcionamento. Essa é a maneira mais inteligente de deixarmos de ser joguetes nas mãos das emoções que nos aniquilam pouco a pouco. E a raiva é uma dessas emoções aniquilantes a longo prazo. Em casos extremos e patológicos, a curtíssimo prazo.
Doses diárias de raiva são como gotas cumulativas de uma poção insipidamente maléfica.
Quanto à capacidade de se indignar e de se importar com a vida, com os seres, com a natureza e com os desdobramentos e conseqüências de nossos atos, essa é uma das grandes motivações para se trilhar o imprescindível caminho da mudança em nós mesmos e, por extensão, ao nosso redor.
É a indignação que me faz continuar a valorizar a vida e a tentar achar uma solução para aquilo que me incomoda, que mexe comigo tensamente, que chega a me confundir. Mesmo porque, no Yoga, "ser pacífico" não significa, necessariamente, "ser passivo".
Quem conhece um pouco do Bhagavad Gita se lembra de uma das possíveis leituras interpretativas desse texto, onde Krishna instrui Arjuna a "lutar", a agir. De certa forma, Krishna nos ensina que não há sabedoria e equilíbrio sem a reta ação, sem uma certa dose de indignação e de movimento.
Nesse contexto, a indignação é uma forma de promover a transformação, enquanto que a raiva só leva à destruição - na melhor das hipóteses, de si mesmo.
Você se lembra de já ter pulado um muro, mesmo que baixinho? Já tentou caminhar por um? Já brincou de se equilibrar, andando na beirada de uma calçada? Já saltou uma seqüência de degraus? Já tentou "voar", com lençol de super-herói e tudo, pulando do peitoril da janela do seu quarto? Já subiu numa árvore, nem que seja pra apanhar algumas jabuticabas? Já brincou de saltar poças de água na chuva? Então, você sabe o que é Parkour.
Você já plantou bananeira no encosto do sofá da sala? Já fez aquela careta manjada, de colocar a língua pra fora e ficar vesguinho? Já brincou de tocar os pés com as mãos, sem dobrar os joelhos? Já tentou se equilibrar numa perna só, como se fosse o Saci? Já se esparramou no chão, se finjindo de morto? Já brincou de fazer ponte e espacate? Então, você também sabe o que é Yoga.
O Parkour e o Yoga, embora pareçam não ter nada em comum, podem, ao meu modesto ver, ser consideradas artes que se integram. Especialmente na busca libertária e quase lúdica da perfeição dos movimentos. Neles, o despojamento, a alegria e a criatividade se mesclam aos obstáculos do caminho, e os superam.
Parkour e Yoga são artes de superação. Muitas vezes, até parecem, mas não são esportes. Além do mais, não existe competição a eles associada. Tudo que existe é a liberdade, de se fazer o que se pode com o que se tem, para tentar transpor os impedimentos que se apresentam. Some-se a isso, a alegria das lembranças da infância, onde o corpo era, naturalmente, uma grande brincadeira.
Sempre digo aos meus alunos, que a pratica do Yoga deve promover a abertura da consciência de nossas ações, do cultivo do discernimento, do desapego, da responsabilidade e do nosso crescimento humano. Mas também deve permitir que sejamos mais alegres, livres, leves e soltos na vida. Uma mistura de razão e de emoção, de inteligência e de intuição, de movimento e de relaxamento...
De muitas formas, Parkour e Yoga me remetem aos meus bons tempos de criança, à minha realidade essencial e transcendental de ser apenas quem eu sou: apesar dos pesares, dos impedimentos, das angústias e das aflições.
Pra mim, o Parkour é uma arte intensamente suave, enquanto que o Yoga é uma arte suavemente intensa.
Seja como for, ambos representam a alegria e a liberdade desse imprevisível, enigmático e extraordinário percurso que é a vida.
Nota: Pra quem ainda não conhece o Le Parkour, selecionei dois vídeos: um com o psicanalista Eduardo Bittencourt e o videoclipe de "Jump", com a Madonna. Pra quem quiser saber mais: www.leparkourbrasil.com.br .
O sânscrito é a língua oficial do Yoga, embora seja considerada, assim como o latim, uma língua morta. Mas é uma linguagem maravilhosa!
Sempre fui apaixonada pela terminologia do Yoga por causa da beleza que as palavras sânscritas carregam. Algumas pronúncias podem ser muito complicadas, mas algumas podem soar de forma preciosa.
Um nome comumente conhecido, como Lakshmi, por exemplo, pode conter uma sonoridade muito especial, se prestarmos verdadeira atenção quando o estivermos pronunciando. Todas as palavras são assim, mas nós simplesmente não temos o hábito de as perceber em sua grandiosidade sonoro-vibracional.
Recordo-me de uma conferência do saudoso professor-doutor Gharote, do Instituto de Yoga de Lonavla, sobre o Yoga-Sutra de Patañjali, quando ele nos fez repetir várias vezes o sutra de número dois, do primeiro capítulo, do referido texto:
Yogas citta vrtti nirodhah
Assim, Patañjali define o que é o Yoga.
Mas, existe uma diferença entre apenas ler o sutra e o ficar repetindo em voz alta, na sua língua original. Penso que os sutras de Patañjali foram concebidos para ser falados, vocalizados, e não apenas lidos, do mesmo modo que as poesias deveriam ser sempre declamadas.
Se você quiser experienciar o que eu disse, escolha uma palavra de sua pedrileção e a fique repetindo, em voz alta, por algum tempo.
Viría em gotas cristalinas, ou na forma de uma leve brisa, numa projeção romanticamente concebida, assim como um sonho numa noite de verão...
Mas, em se tratando de William Shakespeare, a visão deve ser um tanto mais tórrida e torrencial, assim como seus famosos personagens: Romeu & Julieta, Desdêmona & Othelo, Macbeth & Lady Macbeth, o solitário Hamlet...
Num cenário intimamente shakesperiano, a dor é sempre conspiratória e trágica. Contudo, é também revelatória.
A combinação desses três elementos (conspiração-tragédia-revelação) são as constantes características da dor através dos tempos.
Quando estamos imersos numa experiência de dor, desenvolvemos toda uma teoria da conspiração e não enxergamos nada além da tragédia que nos envolve. Sem acharmos explicações plausíveis nem convincentes na nossa trajetória pessoal, olhamos para o céu, em busca de uma possível revelação. Revelação esta que, supostamente, iria pôr fim a um ciclo dilacerante, torturante, agonizante.
De certa forma, somos todos vítimas dentro de um enredo shakesperiano. Já nos acostumamos a achar que a dor vem mesmo do céu, na forma de punição sem explicação, de merecimento sem culpa.
Mas se acaso a dor vem do céu, ela também parece nos levar até lá...
Sempre tive curiosidade de saber. Se bem que, obviamente, depende muito do tamanho da canoa: se pequena, média ou grande.
Meus pais e avós sempre falavam isso pra mim: que íam me mostrar com quantos paus se fazia uma canoa, toda vez que eu inventava alguma arte.
Eu parava, ficava esperando, mas nada de canoa! Aí eu me enchia, me cansava de esperar pra ver a canoa, e voltava a fazer uma outra arte. E era quando ela voltava à cena:
- Você está querendo mesmo ver com quantos paus se faz uma canoa, não é mocinha?
Achei que isso já estivesse mais do que explícito pra eles, mas, mesmo assim, nadica de nada de canoa!
Com o passar do tempo, deduzi que essa tal canoa devia estar flutuando em algum lugar obscuro do planeta, num rio de águas negras e tortuosas, à deriva da vida. Uma espécie de canoa assombrada, nunca antes navegada.
Uma inacessível canoa, foi nisso que ela se transformou. Uma onírica canoa, como num auto do inferno. Porém, uma resistente canoa, praticamente indestrutível.
Com o passar de mais alguns anos, a imagem da canoa foi ficando mais amena, mais serena, mais pequena e mais distante também. Por alguns períodos, ela chegou a desaparecer completamente, como se nunca tivesse existido. Cheguei a perder a minha memória da canoa, as minhas lembranças dela. Quando me dei por conta, estava, junto com a minha canoa, perdendo contato com o fascínio e o encantamento que sempre fluíram em mim.
Minhas travessias ficaram bem mais desinteressantes sem ela, desidratadas. O fluído, que lhe servia de condutor, estava se esvaindo. O frio gostoso e estimulante na barriga estava se transformando em puro medo -- um medo enorme da canoa virar e de eu desaparecer pra sempre, como se nunca tivesse existido.
Foi quando, num fim de tarde de outono, deitada no chão em savasana, vislumbrei a minha canoa.
Minha boa e velha canoa ainda estava lá, embora estivesse diferente.
Eram os remos!
Minha canoa, antes apenas uma canoa desmembrada e desarticulada, tinha agora um par de remos, como braços esperando pra me abraçar.
Quanto aos paus, ainda não descobri com quantos se faz uma canoa.
Dia desses, lembrei-me dos anos 1960 e 70, uma época de grandes transgressões e desajustes, que continuam ecoando e se desdobrando até os nossos dias.
Lembrei-me de Woodstock.
O Festival de Woodstock aconteceu em 1969, nos Estados Unidos, e marcou um dos maiores momentos da história do comportamento humano (e o mais significativo da segunda metade do século XX): o Flower Power, o Movimento Hippie!!! Ou, de maneira mais acadêmica: Contracultura.
Hoje, esse momento histórico ficou conhecido como sendo a era do sexo, das drogas e do rock and roll. Mas também foi a era dos gritos e dos protestos contra a Guerra do Vietnã, contra os regimes ditatoriais, como o que tínhamos no Brasil, das passeatas estudantis na França, com o apoio de ninguém menos que Jean-Paul Sartre, e dos Beatles praticando meditação transcendental em Rishkeshi, na Índia, tendo como guru Maharishi Mahesh Yogi.
Nessa época, esse povo todo, muito doido e muito engajado, também praticava Yoga. Yoga e LSD (além da cocaína) estavam na moda e as experiências lisérgicas e psicodélicas estavam em alta. Tudo regado a muito álcool e dieta macrobiótica. E com muita gente morrendo muito feliz, e bestamente, achando que tinha encontrado o caminho do Nirvana, da Iluminação. Assim se foram Joplin, Hendrix e tantos outros.
Embora não entendesse nada, sinto o fascínio que era poder ver aquela gente toda reunida nos parques: com flores nos cabelos, cantando, meditando...e fumando um "baseado" nos intervalos.
Chocante?
Sem dúvida, mas com um toque de ingenuidade e de romantismo, porque era tudo muito novo e as intenções pareciam ser tão legítimas. Todos queriam mudar o mundo, acabar com as guerras, com os preconceitos e com as injustiças raciais. E a mensagem de Martin Luther King (morto em 1968) ainda estava lá, mais presente do que nunca, fazendo ecoar seus discursos para que a cor da pele de uma pessoa não fosse motivo de exclusão e de morte. Admirador de Mahatma Gandhi, Luther King tinha muitos sonhos e em seus soberbos pronunciamentos dizia:
" - Eu tenho um sonho..."
Foi uma época incrível, foram anos incríveis, e eu já me encantava com o Yoga.
Lembro-me de assistir um programa de televisão todas as tardes, em que um senhor de voz melodiosa e calma instruía uma senhora de collant preto na execução dos asanas. Eu ficava absorta, olhando, realmente encantada, e tentando repetir tudo. No final, uma música suave embalava nosso relaxamento: da senhorinha e meu, claro!
Romanticamente, posso dizer que o Yoga era apenas um sonho...
O Dalai Lama, líder espiritual dos budistas tibetanos, condenou neste domingo (16) o “regime de terror” e o “genocídio cultural” impostos pela China. Além disso, pediu uma investigação internacional sobre os confrontos dos últimos dias no Tibete, que segundo o governo tibetano deixou cerca de 80 mortos.
“Eles usam a força para conseguir a paz; uma paz conquistada pela força mediante um regime de terror”, disse o dirigente religioso em uma coletiva de imprensa em Dharamsala, ao norte da Índia, onde está exilado desde 1959.
Segundo dados “confirmados” pelo governo tibetano exilado no norte da Índia, 80 pessoas morreram durante os protestos dos últimos dias na Região Autônoma do Tibete, controlada pela China.
Até agora, o governo chinês confirmou dez mortes em Lhasa, capital do Tibete, durante as manifestações - as mais sangrentas desde 1989.
“Por favor, investiguem. Que um órgão internacional tente primeiro investigar a situação no Tibete”, pediu o Dalai Lama.
“Seja ou não de forma intencional, um genocídio cultural está acontecendo”, completou. Segundo o líder religioso, os tibetanos são tratados “como cidadãos de segunda categoria em sua própria terra”.
Jogos Olímpicos
O Prêmio Nobel da Paz afirmou que os Jogos Olímpicos de Pequim em agosto devem ser celebrados e disse ser contra um boicote.
“Quero os Jogos. O povo chinês (...) deve se sentir orgulhoso. A China merece ser sede dos Jogos Olímpicos” ePequim deve “ser lembrada como uma boa anfitriã” nessa competição, disse o Dalai Lama.
Estava vendo um programa jornalístico, que falava sobre o assustadoramente crescente número de cirúrgias plásticas estéticas realizadas no Brasil. Estatisticamente, já somos o segundo colocado, perdendo apenas, e por bem pouquinho, para os Estados Unidos.
Mas o que, de fato, me chamou a atenção nessa reportagem foi a motivação: aquilo que leva as pessoas (na sua maioria ainda as mulheres) a se submeter a uma ou mais dessas cirurgias. Porque, pra mim, cirurgia é cirurgia: seja estética, corretiva, restauradora, salvadora etc. E, até onde sei, nenhum procedimento cirúrgico é inócuo. Tomar uma simples injeção já pode ser considerado um procedimento invasivo, quase cirúrgico.
Assistir ao tal programa, e ver aquelas mulheres indo para o centro cirúrgico como se fossem a uma festa, me causou um certo inquietamento. Não por nenhum conflito de ordem moral, nem por simples preconceito, do tipo achar que quem se submete espontaneamente, e sem indicações médicas estritas, a esses procedimentos mereça ostentar a eterna alcunha de ser superficial e de se importar somente com a aparência. Mesmo porque, cada qual faz o que bem entender com o próprio corpo, desde que possa arcar com as conseqüências de suas escolhas. Sem pregação nessa hora. Mas, muitas vezes, as explicações não convencem ninguém, e principalmente a própria pessoa.
Complicado isso de ter que achar uma explicação razoável para poder justificar a modificação artificial do corpo físico. Penso que, pelo andar da carruagem, não vai haver uma explicação que faça todo o sentido, quando o tema for única e exclusivamente estético, a não ser: fiz porque quis. Agora, a aceitação dessa história, a digestão detalhada do processo, não parece ser um caminho tão fácil de se trilhar. A decisão aparece nos resultados estéticos. A verdadeira motivação, quase nunca.
Fala-se em baixa auto-estima, o nome mais moderno para complexo de inferioridade, como principal justificativa. Pode até ser mesmo. Mas não deve ser somente isso. Uma das entrevistadas disse que se submetia à cirurgia para colocação de próteses mamárias porque o namorado achava bonito, e ela queria agradá-lo, uma vez que era importante para ele.
Uma cirurgia em nome do amor, para agradar o namorado...
Pensei que talvez ela devesse cogitar o fato de ele não ser mais o namorado ideal para manter ao seu lado. Ou que talvez ele devesse buscar um relacionamento com uma mulher que já tivesse as tais próteses. E que ela, se estivesse bem com seus seios naturais, com certeza encontraria um homem que gostasse dela assim mesmo: "desprotetizada"!
A coisa não é tão simples quanto fazem parecer. Da boca pra fora, tudo é muito convincente. Nos subterrâneos da mente, tudo é ainda muito obscuro.
O corpo, mais cedo ou mais tarde, começa a ficar flácido e enrugado.
O corpo está exposto às intempéries do tempo.
O corpo caminha naturalmente para o relaxamento da vida. Por enquanto, esse é um processo humano natural.
Mas a flacidez do corpo não é a mais repugnante, embora, atualmente, pareça não haver nada pior. Existem, pelo menos, dois outros tipos de flacidez, os quais considero mais gritantes: a da mente e a da alma.
Quem sabe, não seriam essas outras duas misteriosas "flacidezes" as verdadeiras responsáveis pelas tentativas desesperadas de se eliminar, a qualquer termo e custo, essa tal flacidez do corpo?
Jornalista de uma revista pediu minha opinião, bem curtinha, para uma matéria que aborda o tema Fé & Saúde.
Eis a minha curtinha opinião:
A fé é uma sabedoria, uma espécie de inteligência inata que todos temos. A fé não precisa de comprovações nem de explicações, pois ela simplesmente é. Fé é vida na sua essência. A prática do Yoga desenvolve a sensibilidade, o refinamento, a vivência da fé em sua profundidade. Considero o Yoga um caminho de fé, mas não um caminho de crenças. Fé e crença são coisas diferentes, embora costumem ser corriqueiramente confundidas. A fé não depende de se acreditar ou não em algo e/ou alguém. Já a crença depende da premissa de se acreditar que alguma coisa seja verdadeira (ou falsa), mesmo que pareça não fazer o menor sentido e se alicerce em outras premissas, que podem ser equivocadas. Os grandes absurdos criminosos da história humana se sustentam sob os argumentos de várias crenças, entre elas as religiosas. Considerando essas colocações, penso que a vivência da fé pode ajudar no restabelecimento da saúde, pois fé e vida são sinônimos. Se existe amor pela vida, existe fé. Mesmo que não se creia num Deus ou num outro conceito qualquer. A fé persiste apesar das nossas crenças. No fundo, a fé é como o amor: se conseguir explicar, talvez não seja.
Ganhei de presente o livro de Garcia Marquez, terminando a faculdade. Já praticava Yoga, mas absolutamente não sabia quase nada sobre o assunto. Aliás, sem pretender dar uma de falsa-modesta, até hoje sinto que ainda estou distante de saber.
Li Cem Anos de Solidão em dois dias. E, além do estilo do gigante Gabriel, de sua magnífica dança de palavras e significados, me encantei foi com o título.
Encanto-me até hoje. Está entre os meus títulos favoritos. Nem tanto por cem anos significar um século. Nem mesmo pela nauseante solidão existencial, a lá Sartre. Mas muito mais pela coesão, pela sensação que me invade quando o pronuncio em voz alta:
CEM ANOS DE SOLIDÃO.
É muita solidão. Embora não o suficiente.
Sensação ambígua, com certeza.
No terceiro dia, após os dois em que permaneci lendo, peguei uma folha de caderno e comecei a dizer em voz alta, enquanto escrevia:
SEM ANOS DE SOLIDÃO, SEM ANOS DE SOLIDÃO, SEM ANOS DE SOLIDÃO, SEM ANOS DE SOLIDÃO, SEM ANOS DE SOLIDÃO, SEM ANOS DE SOLIDÃO, SEM ANOS DE SOLIDÃO, SEM ANOS DE SOLIDÃO, SEM ANOS DE SOLIDÃO...
De certa forma, esse foi o meu mantra por todo aquele ano de encantamento.
Saiu o numeral, entrou a preposição.
Saiu a tristeza, entrou a alegria.
Nunca entendi racionalmente, embora tenha vivenciado intuitivamente, o processo que experienciei nessa época.
Só sei que, recentemente, fazendo uma re-visão, percebi que o olhar, com que li a obra de Marquez, já era um olhar do Yoga.
Mesmo sem saber, mesmo sem querer.
De forma mais ou menos parecida, com pequenos ajustes do foco e do olhar, podemos começar a modificar nossas atitudes no dia-a-dia. Com uma mudança bem pequenininha, quem sabe de apenas uma letrinha, naquela sentença que forma o caráter absessivo de um pensamento serial e destruidor.
Costumo associar esses pequenos ajustes do olhar como os concebidos por um diretor de cinema. Ora muda-se uma frase do roteiro, ora uma nuance da luz, ora a atitude do personagem... Assim são concebidos os grandes filmes, aqueles que mexem diretamente com nossas emoções, evocando o sentimento da poesia inerente da alma, produzindo estados sutilmente transformadores e essenciais.
Dizem que nada começa grande...
E como disse Clarice, a Lispector, outra gigante:
"Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade."
Sendo assim, seja cem ou sem, definitivamente, são muitos poucos anos.
É IMPORTANTE QUE VOCÊ LEIA ESTE ESCLARECIMENTO:
[Edson Marques][http://mude.blogspot.com][Guarujá ][SP] [14/12/2008 13:11] Rosana, gostei muito do teu blog! E agradeço por ter publicado, em 20/01/2008, os versos iniciais do meu poema MUDE. Pena que você disse, por engano, que é de Clarice Lispector. Não é. Livro MUDE já publicado pela Pandabooks, com prefácio de Antonio Abujamra. Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade. (...) Detalhes em http://mude.blogspot.com Abraços, flores, estrelas.. Edson Marques.
RESPOSTA:
Me desculpa, Edson! Já li estes seus versos em outras publicações, inclusive revistas, como sendo da Clarice Lispector. Para reparar, vou colocar este seu comentário no rodapé da minha postagem, para que todos possam saber a verdade e ajudar a divulgá-la. Também gostei muito do seu blog e dos seus textos, que são realmente especiais. E, cá entre nós, tirando um ensinamento desse episódio, ter sua literatura confundida com a da Clarice só confirma ainda mais o seu talento. Eu me sentiria lisonjeada. Abraço & muito obrigada pela compreensão!
Em um de seus aspectos, a deusa Maya simboliza o conceito de ilusão na mitologia do Yoga. Metaforicamente, Maya também pode ser apenas um simples e translúcido véu, que encobre nossa verdadeira percepção da realidade. Desse modo, vivenciamos o mundo na forma de dualidades separatórias, tanto físicas, como tempo e espaço, matéria e energia, quanto psicológicas, como certo e errado, bonito e feio.
Toda a tecnologia do Yoga visa levar o praticante a paulatinamente "deixar cair" o véu de Maya,que, teoricamente, o impede de experimentar a união integral e absoluta do universo supremo.
Nesse processo, genericamente, podemos dizer que todas essas separações ilusórias obedeceriam à linguagem do cérebro (mais física), que é linear, não-simultânea, fracionada e temporal, em contraposição à linguagem do coração (mais psicológica), que é circular, simultânea, indivisível e atemporal.
Analogamente, essa linguagem circular do coração poderia ser, por exemplo, a mesma linguagem expressa por Krishna no Bhagavad Gita, assim como por todos os legítimos mestres espirituais de todos os tempos. Sendo que esta é, portanto, a linguagem do Yoga em todas as suas sistematizações.
Penso ser interessante observar o que diz o psiconeuroimunologista Paul Pearsall, referindo-se aos conceitos de ilusão e união, de acordo com algumas descobertas (não sei se já devidamente comprovadas pela metodologia científica ortodoxa) na área da física quântica:
"Sabe-se agora que os objetos situados em lados opostos do universo parecem estar energeticamente unidos um ao outro. Com maior rapidez que a velocidade da luz, uma mudança que ocorra em um dos pares desses objetos é instantaneamente reproduzida no outro que compartilha essa energia informativa. Esse princípio da física quântica enuncia que no mundo quântico e vibratório do qual as células de nosso corpo são parte, não existem barreiras, o tempo é relativo, massa , energia e informação são a mesma coisa, objetos uma vez unidos retêm para sempre a memória energético-informativa dessa união, e a separação de qualquer natureza, seja no mundo humano ou físico, é mera ilusão."
Nesse contexto, a simbologia de Maya nos revela o real significado do que seja a essencial União - que é o significado mais difundido da palavra Yoga através dos tempos cronologicamente inventados.
Portanto, como sugerem as bem colocadas palavras de Pearsall, nossas noções de separação e de ruptura não passariam de percepções um tanto equivocadas.
No fundo, a desunião tem tudo para ser uma mera ilusão.
Agora pouco, saindo da oficina mecânica, para manutenção de começo de ano, recebi uns brindes. Entre eles, um calendário, onde, no verso, dizia assim:
"Perguntaram ao Dalai Lama:
- O que mais te surpreende na humanidade?
E ele respondeu:
- Os homens...Porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer...e morrem como se nunca tivessem vivido."
A gente nunca sabe direito por quê, dentre tantas possibilidades, escolhe certas coisas, lugares e pessoas na vida.
Até que recebe um simples calendário de presente e se dá conta.
O nosso cérebro, assim como um computador, assume tudo como sendo realidade. Imagine que, numa manhã ensolarada, você esteja em seu quarto, no escuro. Imagine ainda que você adormeça e sonhe. O escuro do quarto transformará a manhã em noite e os seus sonhos passarão a ser sua realidade imediata. Afinal de contas, você não se lembra que está dormindo e sonhando. Ao despertar, você percebe que esteve dormindo e que os sonhos não são, de fato, a realidade que pareciam ser há apenas alguns instantes. Ao abrir a janela, você também percebe a luz da manhã.
De maneira semelhante, é isso o que acontece com nossos pensamentos, pois pensar sobre um fato, um acontecimento, uma pessoa, uma situação, ou uma história qualquer, traduz-se em realidade imediata para o cérebro. Ele não “sabe” que esses pensamentos não são a realidade que ele percebe ser.
Pensamos sem parar: da hora em que acordamos até o momento de novamente adormecermos e, mesmo durante o sono, com sonhos ou sem nos lembrarmos deles, estamos pensando, incessantemente pensando... Nas coisas mais banais, até absurdas, que, parte das vezes, não têm nada a ver com o momento presente. Mas lá estamos nós, pensando, pensando, pensando... Pelo menos, "pensamos" que assim seja. Parece mais eficiente dizer que os pensamentos nos pensam, pois é essa a sensação que fica nos raros momentos em que tomamos consciência do que na verdade está acontecendo.
Vários mestres de Yoga associaram os pensamentos a um macaco pulando de galho em galho, atrás de suas preciosas bananas. Perfeita metáfora, pois assim somos nós: pensamos incessantemente e, ainda por cima, acreditamos que esses pensamentos sejam a nossa única e absoluta realidade!
E é exatamente nesse ponto que tudo começa a se emaranhar.
Que os pensamentos existem e são reais ( ao menos para quem os pensa), não há porque polemizar, mas tomá-los como realidade única e absoluta é muito mais complicado. É como cair numa armadilha e ter que sair dela várias vezes no decorrer de um mesmo dia. A armadilha é sempre a mesma e, ainda assim, continuamos a cair nela. Como, então, sair desse círculo mental vicioso em que nos encontramos?
Como definido por Patañjali, em seu tratado Yoga-Sutra, "Yoga é a parada voluntária dos turbilhões da mente" (do original sânscrito Yogas citta vrtti nirodhah). Essa é, de fato, a meta de todas as escolas de Yoga. As técnicas podem diferir, mas o propósito é o mesmo: atingir o estado de Samadhi (liberação, integração, iluminação, auto-realização, supra-consciência... ) pela parada voluntária dos pensamentos. Foi isso o que fizeram os grandes yogis e sábios da Índia antiga: conseguiram parar esse circuito mental que nos parece ser ininterrupto. E o fizeram agindo e experienciando as variadas técnicas do Yoga. Transformaram o mero pensar em consciência e esta, por sua vez, foi didaticamente "dividida" nos “indivisíveis” estados de consciência. Ao experienciar cada um desses "novos estados", os foram assimilando, incorporando e, ao mesmo tempo, os foram simbolicamente eliminando, assim como fazemos com as coisas que já nos serviram, mas que já não nos servem mais.
A consciência nos torna capazes de sentir e de distingüir entre a realidade e a fantasia, entre o real e o irreal, entre o verdadeiro e o falso, e a entender e a perceber as dualidades, ou os conflitos, de nossa existência. Pois a consciência não é produto exclusivamente do cérebro, como é comum de se pensar. Ela é integral, total e habita cada minúscula célula do nosso corpo. E é somente quando a consciência penetra em todas as nossas trilhões de células, que conseguimos efetivamente mudar e nos transformar naquilo que, de algum modo, sempre fomos.
Colocar os pensamentos no seu devido lugar pode ser uma excelente maneira de começarmos a prestar mais atenção ao que nos acontece e ao que fazemos acontecer. Não atribuir importância ao que de fato não tem e nem deixar passar despercebidos momentos preciosos são indícios de que estamos nos tornando cada vez mais conscientes de nossa essência, bem como de nossas ações.
érebro, aquietamos o corpo e permanecemos suficientemente serenos para sentir o coração pulsar, podemos nos tornar capazes de evocar mais intensamente a emoção de estarmos vivos." Paul Pearsall
A cardiocontemplação, uma espécie de meditação que dá enfase ao coração, propõe tornar o cérebro menos vigilante e a ligar-se à energia sutil emanada por cada batida do coração. Segundo seu idealizador, o médico psiconeuroimunologista Paul Pearsall, este tem tudo para ser um processo que propicie, por assim dizer, um possível contato com nossa alma através de sua energia espiritual. Segundo ele:
"É um processo combinatório, coletivo e conectivo que nos permite sintonizar a memória da sensação que constitui o fato de termos paixão por estarmos vivos. Assim como os pacientes cardiossensíveis de transplante de coração são fisiologicamente forçados a reconhecer sua conexão com a energia que compartilham com outra pessoa, qualquer um de nós poderia ser capaz de dar plena liberdade ao nosso 'observador oculto', aquela parte de nós que permanece atenta e sensível à emoção de viver, mesmo quando o cérebro está atarefado e aturdido no esforço de nos ajudar a ganhar a vida."
O resultado alcançado pela cardiocontemplação recebeu o nome de coerência cardíaca ou cardiocoerência. Algumas pesquisas nessa área mostraram que a energia celular, a energia do coração e até o nosso DNA, são de natureza musical e rítmica. Ainda segundo Pearsall:
"A cardiologia da energia pode ser vista como uma espécie de musicologia de nossa canção espiritual da vida, o estudo de como o coração não apenas coordena nossa sinfonia celular individual, mas toca em duetos e executa grandes arranjos sinfônicos com todos os corações, pessoas, lugares e coisas."
Essa visão integral e completa da sinfonia perfeita da vida me leva a imaginar que Krishna, o Grande Senhor do Yoga, talvez tenha se expressado através de uma canção divina, a Bhagavad Gita , exatamente para estabelecer contato com cada um dos minicorações que formam a sublime sinfonia universal da criação.
Os sons Anahata e OM , o som primordial que nasce no coração, vibram ininterruptamente apontando nessa mesma direção. Afinal de contas, enquanto Krishna se expressa pelas vibrações musicais divinas, Shiva dança a eterna dança da criação, da destruição e da renovação do Universo.
Segundo os cientistas Gary Schwartz e Linda Russek, co-fundadores da cardioenergética:
"(...) estamos permanentemente empenhados numa dança energético-informativa reverberante. Nossa energia é recolhida por outro sistema de energia, nossa energia altera o padrão e a ressonância da energia nesse sistema, que, por sua vez, emite sua forma de energia que acabou de ser modificada e está agora armazenada como parte de nossa energia; e assim acontece sucessiva e interminavelmente em cada batida de nosso coração."
Muita gente me pergunta se não acho que o Yoga deveria ser mais preservado, exposto somente a pessoas "dedicadas e disciplinadas", como num retorno ao seu primordial passado de transmissão mestre-discípulo, conhecido pelo termo genérico de Parampara (que significa sucessão). Essas mesmas pessoas também acham que "ainda" não estamos preparados para receber ensinamentos tão preciosos e refinados, de Mestres tão superiores e especiais, como os do Yoga. Essas pessoas também se incomodam com o conceito de "ser popular", que envolve o Yoga na atualidade.
A realidade, goste-se ou não, é que o Yoga já é pop (verdade que muito mais fora do que dentro da própria Índia)!
Na minha concepção, o que é útil deve ser devidamente compartilhado, numa linguagem acessível, de uma maneira interessante de se entender. E com os ensinamentos do Yoga também deveria ser simples assim (não confundir com simplista - definição que, devo lamentavelmente admitir, norteia grande parte das publicações e das matérias sobre Yoga disponíveis).
Já faz muito tempo, li uma declaração de Yogananda, que considero bastante compatível com este tema:
"O Yoga é para todos: para a gente do Ocidente como para a do Oriente. Ninguém diz que o telefone não serve para o Oriente só porque foi inventado no Ocidente. Do mesmo modo, as técnicas do Yoga são úteis a toda a humanidade."
De fato, o que estou tentando dizer é que, gente é gente em qualquer canto do planeta: com virtudes e vícios, com acertos e erros, com momentos bons e ruins.
O Yoga foi concebido para toda gente que quer, em algum momento da vida, saber sobre si, se conhecer, se entender, aprender a se aceitar e, quem sabe, poder vir a se modificar, para tentar encontrar a provável resposta que porá fim a uma incessante angústia existencial.
No fundo, o Yoga é para toda gente que vive e experimenta aquele vazio que nunca se preenche totalmente; aquela ausência, não se sabe ao certo do quê nem de quem; aquela insatisfação, mesmo quando tudo parece estar certinho no seu lugar.
Pois é, todos os grandes Yogis, através dos tempos, estavam mesmo certos: o Yoga é para todos. Muito embora tenha, geograficamente, nascido na Índia. E mesmo que, ainda hoje, alguns prefiram continuar fazendo questão de achar que é especialmente mais para uns do que para outros.
Vídeo:
Assista Paramahansa Yogananda ensinando como dormir corretamente, em Londres, 1936. Uma ótima oportunidade de tentar compreender por que os verdadeiros Yogis nunca se importaram de ser populares. Escrito por rosana biondillo às 10h21
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De partir o coração
Vou deixar aqui a notícia, com extrema indignação e com o mais profundo desejo que, o cidadão em questão, não se ache no "direito astrológico" (no corpo da notícia, logo abaixo, você fica sabendo o por quê do termo "astrológico") de sequer vir a considerar a remota possibilidade de "concretizar esse casamento".
Na Índia, assim como em outros países, as mulheres ainda são seres humanos de segunda, terceira, quarta categorias. E os animais, ora idolatrados ora amaldiçoados, não são realmente respeitados.
Seria mais do que interessante refletir sobre o fato que idolatrar não é, nem de loooooooonge, o mesmo que respeitar.
O olhar cansado, triste e distante da cachorrinha Selvi é de partir o coração.
"O indiano P. Selvakumar casou-se com a cadela vira-lata Selvi em uma tradicional cerimônia hindu em Manamadurai, no sul do país, no último final de semana. A "noiva" estava usando a tradicional roupa de casamento, enfeitada com flores.
Selvakumar decidiu casar-se com uma cadela por acreditar que está "amaldiçoado", após ter matado dois outros cachorros por apedrejamento, há 15 anos.
"Depois disso minhas pernas e braços ficaram paralisados e eu perdi a audição em um dos ouvidos", ele afirmou ao jornal "Hindustan Times".
Selvakumar consultou um astrólogo, que lhe disse que a única forma de curar a maldição era casando-se com uma cachorra.
Segundo o jornal local, a família de Selvakumar ganhou uma festa após a cerimônia. Já a cadela Selvi, um pão doce."
Estreou em outubro, na meca do cinema indiano, Bollywood: Om Shanti Om.
Pensei em voz alta:
- Título mais Yoga que esse, só dois desse!
A história se passa nos anos 70. Um artista aficcionado por uma superstar. Ele morre e renasce como um artista mirim, que começa a ter estranhos sonhos e vibrações de seu último nascimento. Seus nomes?
Ele é Omprakash. Ela é Shantipriya. Daí o nome do filme: Om Shanti Om.
Huuuummmm...
Sem comentários.
Ainda assim, vale uma olhadinha neste clipe do YouTube, com direito a chacoalhar os ossinhos com a música-título.
Iyengar diz, em uma de suas entrevistas, que os portões de entrada para a meditação são asana e pranayama, e que, se esses portões não estiverem devidamente abertos, não há como distinguir entre alguém que medita de um esquizofrênico.
De forma semelhante, o psicólogo Daniel Goleman corrobora com essa colocação, ao afirmar que a meditação pode não ser apropriada em determinadas condições mentais agudas, como a esquizofrenia e os transtornos obsessivo-compulsivos, conhecidos sob a alcunha generalizada de TOC.
Algumas outras condições mentais severas, como a depressão (que já mostra indícios de poder se transformar numa epidemia), a síndrome do pânico e o transtorno bipolar, também devem ser minuciosamente avaliadas. Algumas práticas meditativas podem vir a agravá-las, ajudando a mascarar diagnósticos e até a exacerbar certos sintomas.
Nos meios do Yoga, em casos tragicamente bizarros, alguns desses "sintomas" chegam a ser confundidos com "sinais de evolução" dentro da prática - o que é, além de patético, perigoso e até criminoso.
Os distúrbios mentais devem ser abordados e tratados por equipes profissionais multidisciplinares, mormente por médicos e psicanalistas. A meditação entraria como um elemento mais elaborado, desejado e amado, uma espécie de "premiação", que seria necessário fazer por merecer.
Portanto, uma vez definido o diagnóstico, o tratamento médico deveria vir antes, e funcionar, produzindo resultados significativamente satisfatórios. Já a introdução de práticas meditativas específicas deve ser minuciosamente estudada, caso a caso.
No Yoga de Oito Partes de Patañjali, o Ashtanga Yoga, a meditação [dhyana] é uma pré-iluminação [um pré-samadhi], que requer, entre outros atributos, boa vontade, disciplina e prévia preparação, física e mental, por meio dos seis estágios anteriores da prática, que englobam: os dez preceitos éticos [yama & niyama], as posturas [asana], as técnicas de respiração [pranayama], o relaxamento consciente [pratyahara] e a concentração [dharana].
Isso porque, para Patañjali, assim como expressado por Iyengar, corpo e mente devem estar "abertos e receptivos", retamente ansiando e cooperando para o pleno estabelecimento do estado meditativo.
Nesse contexto específico do Yoga de Patañjali, em corpos e mentes "fechados e embotados", há ainda muito o que fazer antes de se pensar diretamente na meditação como um suposto paliativo.
A meditação também pode ser uma forma de fuga e se transformar numa patologia - o que parece estar se tornando mais freqüente.
Li a notícia hoje de manhãzinha, numa revista com Che Guevara na capa, na loja de conveniências do posto de gasolina do qual sou cliente desde sempre, aguardando o Robson terminar a troca de óleo do meu carro.
É sobre o professor norte-americano de ciência da computação, Randy Pausch, 47, que está com um cancêr terminal. Mas, segundo seu próprio relato, ele está bem e feliz, curtindo os seis meses de vida saudável que, segundo os médicos que o assistem, lhe restam.
Ele escreveu em seu blog:
"O mais curioso de tudo é que não estou deprimido. Tampouco estou negando a doença - posso garantir que tenho plena consciência do que vai acontecer."
Randy é casado e pai de três filhos pequenos.
Quando o Robson chegou com as chaves do carro e disse:
- "É melhor a senhora ir direto para o mecânico, pois a coifa do lado direito está vazando, e pode danificar o motor."
Fui feliz, sem reclamar, cuidar de fazer o que tinha que ser feito.
O Robson não entendeu minha felicidade.
Nota: Vídeo com parte da, assim considerada, "última" palestra de Pausch, em 18/09/2007, intitulada "Como viver os seus sonhos de infância".
Noventa por cento dos praticantes de Yoga do planeta conhecem, pelo menos, uma versão do Suryanamaskar, ou Saudação ao Sol.
Mas aposto que ninguém ainda conhece a Saudação ao Sol dos Dedinhos.
Durante uma aula, onde o foco era o Suryanamaskar, notei uns movimentos diferentes, que uma aluna realizava com as mãos, toda vez que elevava os braços. No começo, não dei tanta atenção, pois havia várias pessoas na sala, e ela estava fazendo tudo direitinho.
Até que, por coincidência (ou não), todos terminaram suas seqüências, e ela estava finalizando a sua, elevando os braços e mexendo os dedos das mãos.
A cena era singela e ludicamente engraçada, alguma coisa entre a Dança do Passarinho, do Gugu, e a Dança dos Dedinhos, da Eliana, com um leve toque indígena, de Dança da Chuva.
Não me contive. Segurei o riso e perguntei:
- Posso saber por quê você está movimentando os dedos desse jeito!?
Resposta imediata:
- Para melhorar a circulação das mãos.
Fisiologicamente, fazia muito sentido, mas, psicologicamente, não deu para segurar a gargalhada.
Eu ria e me desculpava ao mesmo tempo, o que transformou a cena numa seqüência de Hasya Yoga, o tal do Yoga do Riso, com direito a mão na barriga e tudo.
Achei tão deselegante minha atitude, mas o pessoal gentilmente entendeu a espontaneidade da coisa, com muito bom-humor. Especialmente, a aluna em questão. Ela até achou que seria uma forma de homenagem, a um momento tão especial, inusitado e inédito, se eu escrevesse esta postagem.
Afinal de contas, ela criou a exclusiva Saudação ao Sol dos Dedinhos! E, convenhamos, isso não é para qualquer um.
Este é um tema que sempre gera controvérsia e é amplamente associado à prática de Yoga, especialmente por causa da autoridade indiscutível do Bhagavad Gita. Além disso, costuma-se confundir a Teoria do Karma com a Teoria da Reencarnação e também com a Teoria de Transmigração das Almas. De fato, a confusão é tanta, que o significado original da palavra sânscrita karma, que é agir, fazer, parece ter se perdido no tempo.
Em parte, isso se deve ao fato de que uma boa parcela das traduções pioneiras de antigos textos sânscritos tenham sido baseadas em traduções francesas e inglesas já existentes. Repletas de boas intenções, essas traduções deveriam ser consideradas mais como "adaptações".
Um outro fator, é tentar entender o fascinante e misterioso mundo oriental, e em especial o profuso mundo do Sudeste Asiático, sob a mesma ótica do nosso prático e despojado mundo ocidental. Esse procedimento costuma não funcionar e, inúmeras vezes, piora a situação, pois toda ação existe num dado contexto. Via de regra, ao mudar-se o contexto, muda-se também a interpretação da ação.
Observando esse longo processo, não é de se estranhar que, hoje, o termo karma, além das interpretações já citadas, também esteja ligado aos conceitos de culpa e de sofrimento carregados de merecimento.
Todas essas minhas colocações estão ligadas mais a um processo intelectual de análise do que a vivências ou crenças.
Eu, como praticante e professora de Yoga, já revelei algumas vezes, em minhas aulas e workshops, e em trechos de alguns de meus textos, que não tenho opinião formada a respeito desse tema. Misturar karma com reencarnação, com vida após a morte, com religião etc. e tal, chega a me cansar um pouco, com todo o respeito. Ao mesmo tempo, acho tudo isso fascinante.
Eu adoraria poder voltar a re-viver, a re-encontrar as pessoas que tanto amo, tendo a chance de me re-dimir de meus erros e de evoluir como um espírito iluminado, rumo à perfeição. Mas, esses momentos se esvanecem e eu volto a ser apenas uma "cética-ignorante", que não sabe absolutamente nada a esse respeito.
Antigamente, eu tentava me justificar, buscando explicações em Patañjali e em Buda. Hoje, já não me justifico mais. Apenas digo que não sei, não sei... E sinceramente espero que as pessoas, que gentilmente se dispõem a me ouvir e/ou ler, não se sintam [muito] decepcionadas com essa declaração --- especialmente vinda de alguém que ama tanto o Yoga.
Às vezes, me vem a nítida sensação de que não tenho muitas opções para mudar minha própria vida e seus acontecimentos, como se o roteiro já estivesse escrito e pronto, uma coisa de destino; em outras, tenho toda a convicção de que posso modificar tudo, que posso fazer acontecer, que posso escrever minha história, toda essa coisa de livre-arbítrio.
Pensando racionalmente, deveria ser um misto das duas coisas, numa matemática perfeita. E, de novo, bem lá no fundo, eu não sei...
Mas existe uma coisa espetacular em toda essa bagunça: o encantamento.
Apesar de todos os pesares e desprazeres, eu continuo extremamente encantada com a vida, com a possibilidade de estar aqui, agora, respirando, imaginando, criando, amando.
O que me trouxe até aqui e para onde isso tudo vai me levar?
Ativistas, usando máscaras da líder oposicionista de Mianmar (=Birmânia), Aung San Suu Kyi, se acorrentaram durante protesto em frente à embaixada chinesa em Bangoc, capital da Tailândia.
Hoje, 24 de outubro, se completam doze anos da prisão da líder.
Está planejado para hoje um dia mundial de ações para que os presos políticos de Mianmar recebam tratamento contra doenças e não sejam mais torturados.
A tradução mais comum para o segundo niyama santosha é contentamento, mas penso que também pode ser alegria de viver.
Ao falar em contentamento, a proposta original de Patañjali, no seu Yoga Sutra, está intimamente ligada à superação das decisões e dos julgamentos baseados apenas na utilização de nossos cinco sentidos, que podem ser contraditórios e distorcivos.
Segundo Patañjali, o contentamento, ou a alegria de viver, permearia uma existência que não apresente motivos para repetição do passado nem para antecipação do futuro; que seja um estado de viver no presente; que não seja nem imediatista nem oportunista; que não alimente expectativas de resultados rápidos e fortuitos; que não dê a falsa idéia de que a dedicação e a disciplina constantes são itens descartáveis.
Embora saibamos que dedicação e disciplina são primordiais, devemos nos lembrar que também não devem ser apenas obrigatórias, pois podem tornar-se pesarosas e desinteressantes.
Patañjali propõe que a dedicação e a disciplina devam ter uma qualidade de disposição, de doação, de bem-estar; que devam ter um elemento de paixão, de energia, de constante e pura alegria pela vida. Pois santosha brota na alma e expressa o sorriso de um coração feliz.
Quando seu coração sorri, isso é puro contentamento: é a alegria pela alegria, é a satisfação pela satisfação, é a emoção pela emoção, é a paz pela paz, é o ser pelo ser.
Quando você se sentir contente e centrado no momento presente, feliz por ser quem você é, quando seus lábios expressarem um leve e iluminado sorriso, e quando seus olhos brilharem apenas por brilhar, assim como brilham as estrelas, você estará em santosha - um estado onde não se fala com a voz da razão, mas com a do coração; onde não se enxerga com os olhos do corpo, mas com os da alma.
Quando os 35Sonetts (escritos originalmente em língua inglesa), de Fernando Pessoa, foram publicados em 1918, estávamos vivendo o surgimento da Arte Moderna que, aqui no Brasil, culminou com a Semana de Arte Moderna de 1922.
Embora o melhor termo para definir Pessoa não seja exatamente moderno, mas tão somente eterno, ele, aos seus modos e estilos (ele nunca foi apenas um, mas muitos, considerando-se seus geniais heterônimos), talvez tenha sido um dos artistas mais despojados e desapegados, embora mutifacetado e mesmo contraditório, na construção de sua Arte.
Fernando Pessoa foi muitos e ao mesmo tempo foi nenhum! Muitas personalidades e nenhuma em especial. E, ainda assim, todas tão especiais...
Em seu Soneto número I, ele se abre falando da alma, do coração, da razão e dos sonhos.
Não tem como traduzir uma obra-prima em constante fluidez, palavras em movimento como as suas. Num esforço, tentei fazê-lo com as duas últimas frases deste soneto, apenas para tornar esta postagem mais didática. Quem leu "Caldeirão de sonhos", logo mais abaixo, vai entender o por quê.
Onde ele diz:
"Nós somos nossos sonhos de nós mesmos, almas vislumbrantes,
E um ao outro sonha [com] os sonhos dos outros."
Já vou me desculpando pela tentativa. Mas o importante mesmo, é ler o soneto na íntegra várias vezes, de preferência:
1. Em voz alta, como que declamando;
2. Apreendendo cada palavra, cada som e tom, cada nuance;
3. Com sentimento despojado e verdadeiro.
Poesia é uma forma de Meditação.
Ou seria a Meditação pura Poesia?
Sem conclusões, apenas reflexões.
Sonnet I
Whether we write or speak or do but look
We are ever unapparent. What we are
Cannot be transfused into word or book.
Our soul from us is infinitely far.
However much we give our thoughts the will
To be our soul and gesture it abroad,
Our hearts are incommunicable still.
In what we show ourselves we are ignored.
The abyss from soul to soul cannot be bridged
By any skill of thought or trick of seeming.
Unto our very selves we are abridged
When we would utter to our thought our being.
We are our dreams of ourselves, souls by gleams,
And each to each other dreams of others' dreams.
Em tempo:Mude o autor, o idioma, o tamanho do texto etc. Fique à vontade para escolher uma Literatura que tenha muito a ver com você. Só não vale deixar o sentimento de lado (pelo menos, neste "tipo" de Meditação, não costuma funcionar).
Em 1899, Sigmund Freud lançava o célebre A Interpretação dos Sonhos e, com ele, dava, oficialmente, a luz à Psicanálise. Antes disso, Neurologia e Psicanálise se misturavam, formando um confuso território. Não que hoje as coisas estejam muito mais esclarecidas, mas foi especialmente graças a Freud, que descobrimos uma instância psíquica chamada inconsciente.
Antes dos estudos de Freud (e ele mesmo fazia isso como neurologista), a "Psicanálise" tratava predominantemente das experiências conscientes e de seus aspectos orgânicos, numa espécie de Neurologia Psicológica (ou, num termo mais moderno e atual, numa Pré-Neuropsicologia).
As perguntas que perturbavam e motivavam Freud, eram as mesmas que, ainda hoje, nos perturbam e motivam a querer saber sempre mais sobre o mundo dos sonhos:
- De onde surgem os sonhos?
- Quais os seus significados?
- Apontariam para o passado, para o presente ou para o futuro?
- Seriam revelações, premonições, regressões?
Segundo Freud, o sonho é o caminho para o inconsciente, sua "via régia", além de ser sua formação mais acessível. Afinal de contas, todos sonhamos e, conseqüentemente, vivemos experiências únicas e inigualáveis durante nossos sonhos. Desse modo, "sonho" e "inconsciente" são considerados praticamente sinônimos, assim como "Interpretação dos Sonhos" e "Psicanálise". Portanto, de acordo com suas pesquisas e vasta experiência, Freud acreditava que os sonhos surgiam e emanavam do próprio inconsciente do indivíduo, e não, dos deuses, demônios ou entidades outras, como era costume crer-se em sua época.
Freud via os sonhos como metáforas ou símbolos a ser interpretados. Os sonhos quase nunca apresentam uma linearidade lúcida, com começo, meio e fim definidos. E mesmo que, possivelmente, o façam, a mensagem pode ser de outra natureza, nem sempre tão óbvia, tão conhecidamente fácil. Excetuam-se aqui os sonhos declaradamente fisiológicos, como ter sede ou frio e acordar para beber água ou se cobrir. Até mesmo os motivados por desejos conscientes muito intensos, como conseguir comprar aquele carro importado ou ganhar na loteria, podem vir camuflados ou censurados, e precisam ser devidamente analisados . Portanto, os sonhos sempre carecem de interpretação para que a vivência de uma experiência inconsciente possa ser acessada e vir a adquirir significado neste nosso mundo considerado como "real" (em oposição ao onírico, ou dos sonhos).
Para Freud, o sonho é a realização de um desejo. Geralmente, um desejo não "aceitável" ou "censurável" no estado de vigília. Nesse sentido, o inconsciente é como um grande caldeirão de sonhos de desejos secretos, que podem cronologicamente pertencer ao nosso passado, próximo ou distante, ao presente ou a uma manifestação ainda em formação, latente, futura. Portanto, nossos sonhos são revelações que nos remetem ao passado, nos trazem para o presente e nos catapultam para o futuro. Os sonhos são a manifestação do tempo fora do próprio tempo. E isso é genial.
Como é maravilhoso também poder compartilhar aquilo que me levou a escrever esta postagem: a descoberta de que todo sonho é sempre uma revelação, uma premonição e uma regressão;não sobre os outros ou sobre acontecimentos alheios, mas tão somente SOBRE SI MESMO! Também não sobre "adivinhações" do que vai acontecer num futuro próximo, ou do que já aconteceu num adormecido passado remoto, mas SOBRE A VERDADEIRA ESSÊNCIA DE SER APENAS QUEM SE É.
E o que é ainda mais importante: sobre a enorme capacidade que todos temos de nos transformar, bem como, por extensão, os acontecimentos ao nosso redor.
Espiritualidade engajada: monges budistas são mortos em confrontos no Mianmar
"Pelo menos dois monges budistas foram mortos nesta quarta-feira (26), na capital de Mianmar, segundo informações oficiais do monastério local."
Não, você não leu errado e eu também não errei ao transcrever a notícia acima: pelo menos dois monges foram atingidos por balas em ataque de militares no Mianmar.
Para quem não se lembra, Mianmar é a antiga Birmânia, e é conhecido como a "terra dos templos" . Está localizado às margens do Golfo de Bengala e do Mar de Andaman, entre Bangladesh e a Tailândia, fazendo também fronteira com a Índia.
Com certeza, essa cena não combina em nada com a idéia romântica que muitos ainda fazemos do mundo espiritual, e que, por mais que alguns prefiram continuar ignorando, também engloba as religiões. De fato, a espiritualidade não precisa estar associada à religiosidade, mas o contrário, sim!
Sábado passado, no "Dia do Yoga", eu disse para uma turma de alunos que, hoje, nesta época, neste século 21, toda espiritualidade deve, SEM FANATISMOS OU ABSOLUTISMOS DE QUALQUER ESPÉCIE, englobar uma participação político-ecológica. Caso contrário, corremos o sério risco de estarmos fantasiosamente brincando de "fazer espiritualidade". Uma espiritualidade patológica.
O Yoga, como disciplina-prática da espiritualidade, faz parte desse pacote. Por mais que muitíssimos praticantes e profissionais prefiram não se posicionar, não participar, não se expor... Enfim, prefiram não ter nenhum tipo de atitude que possa vir a ser considerada "contraditória" (???), como se o Yoga fosse apenas um gigantesco fóssil proto-histórico, inabalável, intocável, inigualável.
Sentar-se em cima das tradições espirituais pode estar se transformando num grande, e ainda desconhecido, distúrbio.
Esse episódio com os monges no Mianmar deveria servir, pelo menos, para mais esta reflexão.
Existe uma lembrança da minha infância que por muito tempo me incomodou e amedrontou: o Dia das Almas. Lembro-me que minha avó paterna costumava acender velas no quintal da nossa casa para homenagear todas as Almas do universo.
- Por que a senhora só acende essas velas aqui no quintal, vovó? Não é melhor dentro de casa? Tá chovendo!
- Não, senhora! Não se acende velas para as Almas dentro de casa.
- Mas elas vão apagar!!!
Eu nunca entendi direito porque ela fazia aquilo: nos dias de sol, as velas derretiam e apagavam, nos de chuva, molhavam e apagavam. Mas ela tenazmente continuava. Muito era pela tradição religiosa da nossa família, mas, mesmo assim, era tudo muito enigmático para uma garotinha de apenas cinco anos.
Esse gesto de minha avó, essa tradição que ela fazia questão de manter e de me ensinar, transformou o Dia das Almas num aterrorizante e ao mesmo tempo atraente mistério para mim. Aterrorizante, porque as Almas eram de gente morta e ponto; atraente, porque me dava aquele friozinho na barriga, como se somente eu soubesse "daquilo" e já fosse grande o suficiente para participar de um ritual desses. Bem lá no fundo, eu sabia que ela confiava em mim. Mas o incômodo, esse sempre permaneceu, embora me reconfortasse a idéia de que as Almas não poderiam entrar na minha casa e me assustar, uma vez que eu não acendesse velas para elas lá dentro.
Alma, para mim, era sinônimo de morte. A gente morria e virava Alma. Gente ruim virava Alma penada. Gente boa virava Alma abençoada.
Com o passar dos anos, eu comecei a me interessar pelas características formativas da Alma, por aquilo que torna uma Alma, Alma.
Existe um certo consenso quando nos referimos ao conceito do que possa vir a ser a Alma:
Uma "coisa" assim um tanto leve e etérea, meio enevoada, de uma certa transparência, e translúcida.
Almas flutuam ao invés de voarem, traspassando objetos e obstáculos.
Almas sussuram ao invés de falarem, expressando enigmáticos olhares e sorrisos.
Almas se desintegram e se escondem no vazio.
Almas só se revelam por vontade própria e são difíceis de se encontrar...
E foi então que surgiu a grande pergunta:
Onde será que a Alma se esconde?
Descobri, finalmente, que não era no quintal de casa.
Seria, então, dentro, fora, abaixo, acima, ao redor? Em todos esses lugares simultaneamente? Na primeira, na segunda, na terceira dimensão? Ou nas outras dimensões que ainda não podemos vislumbrar fisicamente, mas que cientificamente sabemos existir?
Será que para conhecermos a Alma, devemos nos lançar ao espaço ou mergulhar nas profundezas do oceano?
Subir ou descer? Ou descer e subir?
Nem preciso dizer que não cheguei muito longe. As respostas sempre vieram pela metade. Até que um belo dia, "sem querer querendo", como diz o Chaves, descobri o Yoga.
Não, não é verdade. Na verdade, eu não descobri o Yoga: o Yoga é que me descobriu. Eu apenas liguei a televisão e vi um senhor falando mansinho com uma senhora, que estava fazendo uns movimentos interessantes com o corpo, umas posturas, como ele explicou. Resolvi imitar, gostei e passei a fazer todos os dias, no meu quarto, para um certo desespero de minha mãe:
- Você sabe a quanto tempo você está aí, com essas pernas atrás da cabeça (leia-se: halasana)???Você vai ficar sem ar!!!
Três anos depois, passando por uma rua, vi uma placa escrito YOGA. Simplesmente entrei, me matriculei e comecei "oficialmente" a praticar. Eu tinha 19 anos.
Nove anos mais tarde, quando minha avó morreu e eu já havia decidido parar de fazer perguntas difíceis, me peguei no quintal da casa de minha mãe, acendendo uma vela especialmente para ela, do jeito que ela tinha me ensinado. E foi nesse exato momento que eu espontaneamente descobri, e pela primeira vez senti de verdade, que Alma é sinônimo de vida. E que minha avó não tinha que ficar em outro lugar qualquer que não fosse apenas nas lembranças do meu coração.